Gaúchos em Santa Catarina: migração e voto segundo TSE e IBGE (2014-2022)
Migração e voto no Sul (2014–2022). Fontes: TSE e IBGE/Censo 2022.

Tem uma frase que viralizou nos grupos de WhatsApp e nas redes de Santa Catarina: “os nordestinos estão chegando com título de eleitor para fazer aqui o que fizeram com o Nordeste”. A acusação é direta — a migração estaria “esquerdizando” o estado mais conservador do país. O problema é que, quando você abre os dados do TSE e do IBGE dos últimos 12 anos, a história não fecha. A maior onda migratória que chega a Santa Catarina não vem do Nordeste. Vem do vizinho de baixo. E vota mais à esquerda do que o próprio catarinense.

Resumo rápido: O Rio Grande do Sul votou de forma consistente cerca de 12 pontos mais à esquerda que Santa Catarina nas três últimas eleições presidenciais. E os gaúchos são 26,8% de toda a migração que entrou em SC entre 2017 e 2022 — o maior grupo de origem, à frente dos paranaenses (19,1%). Nordestinos são minoria nesse fluxo. Os números não acusam o Nordeste: acusam o vizinho.

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O mito que viralizou — e quem ele culpa

A narrativa é conhecida: como o Nordeste vota majoritariamente na esquerda, e Santa Catarina virou destino de migração nacional, os “novos eleitores nordestinos” estariam mudando a cor política do estado. É um argumento emocional, fácil de repetir e que encontra terreno fértil num estado que se orgulha de ser o mais à direita do Brasil.

Mas argumento bom é argumento que sobrevive aos dados. E aqui o dado é teimoso: se existe um grupo que entra em SC trazendo um eleitorado mais à esquerda em volume, esse grupo é gaúcho, não nordestino. Vamos por partes, com fonte em cada número.

O que os números do TSE realmente mostram (2014–2022)

A pergunta certa não é “quem vota na esquerda”, e sim “qual estado do Sul vota mais na esquerda”. A resposta, em três eleições presidenciais seguidas, é sempre a mesma: o Rio Grande do Sul. Veja a votação do candidato do PT no segundo turno em cada estado:

Eleição (2º turno) Rio Grande do Sul Santa Catarina Diferença
2014 — Dilma (PT) 46,5% 35,4% RS +11 pts
2018 — Haddad (PT) 36,8% 24,1% RS +13 pts
2022 — Lula (PT) 43,7% 30,7% RS +13 pts

Voto na esquerda (PT) no 2º turno presidencial

Percentual de votos válidos — Rio Grande do Sul x Santa Catarina

2014 · Dilma Rousseff

RS

46,5%
SC

35,4%
2018 · Fernando Haddad

RS

36,8%
SC

24,1%
2022 · Lula

RS

43,7%
SC

30,7%
Rio Grande do SulSanta Catarina

Repare na constância: não é um ano fora da curva, é um padrão estrutural. Em 2014 a diferença foi de 11 pontos; em 2018 e 2022, de 13 pontos. O gaúcho médio é, com folga, mais à esquerda que o catarinense médio. Esse é o ponto de partida que a narrativa anti-nordestino ignora.

Nordestinos x gaúchos: quem realmente pesa na urna de SC

Aqui está o ponto que derruba a narrativa de uma vez. Existe uma diferença crucial entre inclinação por eleitor e peso na urna. O nordestino, individualmente, vota mais à esquerda que o gaúcho — no Nordeste, Lula fez quase 70% em 2022. Mas o que muda o resultado de um estado não é a inclinação de um voto: é o tamanho do bloco. E é aí que o gaúcho domina, porque é o maior fluxo que entra em SC. Veja no gráfico de eixos:

Inclinação à esquerda x peso migratório em Santa Catarina

Quanto mais à direita no eixo X, maior o fluxo para SC. Quanto mais alto no eixo Y, mais à esquerda por eleitor.

+ ESQUERDA POR ELEITOR →

Nordestinos
~69% à esquerda · fluxo pequeno
Gaúchos
~43% à esquerda · MAIOR fluxo (26,8%)

+ PESO NO FLUXO MIGRATÓRIO PARA SC →

NordestinosGaúchos
Como ler o gráfico: o nordestino está no alto à esquerda — vota muito na esquerda, mas chega em pouco volume. O gaúcho está à direita — vota menos na esquerda por cabeça, mas chega em volume muito maior. Eleição se ganha e se perde no volume. E o volume tem sotaque gaúcho.

A maior migração para SC é gaúcha — e isso está no Censo

Santa Catarina é hoje o maior destino de migração interna do Brasil. Entre 2017 e 2022, o estado teve saldo positivo de 354,4 mil pessoas — chegaram 503,6 mil e saíram 149,2 mil, segundo o Censo 2022 do IBGE. E de onde vem essa gente?

De onde vêm os migrantes que chegaram a SC (2017–2022)

Participação por estado de origem — Censo 2022 / IBGE

Rio Grande do Sul

26,8%
Paraná

19,1%
Resto do Brasil
(SE + NE + N + CO)

54,1%

Atenção para não cair em armadilha de leitura: aquele bloco de 54,1% não é “tudo nordestino”. Ele é a soma de todas as outras regiões do Brasil juntas — Sudeste (São Paulo é grande emissor), Nordeste, Norte e Centro-Oeste —, mais o exterior. O Nordeste é apenas uma fatia desse pedaço, repartida com São Paulo e os demais. Já os dois vizinhos do Sul, sozinhos, respondem por quase metade (46%) de toda a migração que entra em Santa Catarina, com o Rio Grande do Sul na liderança isolada — mais de 1 em cada 4 migrantes. Em outras palavras: o gaúcho, sozinho, supera com folga qualquer estado nordestino isolado nesse fluxo.

A conta que ninguém faz

26,8%

dos migrantes em SC são gaúchos (maior grupo)

~12 pts

RS vota mais à esquerda que SC, em média

354 mil

saldo migratório de SC (2017–2022)

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Enquanto o RS faz greve, Santa Catarina emprega

Tem um segundo lado da história que a narrativa anti-nordestino prefere esconder, e ele aparece no mercado de trabalho. O Rio Grande do Sul carrega a mais antiga e organizada tradição sindical e de greve do Brasil: a primeira greve geral do país aconteceu em Porto Alegre, em 1906, e o estado virou referência de mobilização operária ao longo de todo o século XX. É uma cultura política — legítima, mas que veio junto na mala de quem migrou.

Santa Catarina construiu o oposto: o estado do pleno emprego e do cooperativismo. Os números são de outro planeta:

Indicador de trabalho Santa Catarina Brasil
Taxa de desemprego (2025) 2,3% (menor do país) 5,6%
Taxa de informalidade 24,7% (menor do país) 37,8%
Crescimento do PIB (12 meses) +6,9% (lidera) ~3,5%
Trabalhadores em cooperativas 13,5% (maior do país) RS: 9,9%
Empregos formais criados (2023–2025) ~230 mil carteiras assinadas

Esse é o ponto incômodo para quem só sabe culpar o nordestino: o migrante que chega a Santa Catarina, venha de onde vier, vem para trabalhar nas vagas que o estado tem de sobra. SC abriu cerca de 230 mil empregos com carteira em três anos. Enquanto o debate sobre “título de eleitor” rola, o sotaque que enche as vagas das indústrias do Vale do Itajaí e do Oeste catarinense é tão nordestino quanto gaúcho — e é trabalho formal, não greve.

O mito de que “não existe esquerda eleita no Sul”

O segundo pilar da narrativa é que o Sul “sempre foi de direita” e que a esquerda é uma invasão recente. É falso, e a história eleitoral derruba isso na hora. Comece pelo Rio Grande do Sul: Porto Alegre teve 16 anos seguidos de PT (1989–2004), sediou o Fórum Social Mundial e inventou o Orçamento Participativo, modelo copiado mundo afora. O estado elegeu dois governadores petistas: Olívio Dutra (1999–2003) e Tarso Genro (2011–2015).

E em Santa Catarina? Aqui o que importa não é “achismo”: importam os cargos que se elegem pelo voto — vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, senador, governador. Esfera por esfera, o mito de que “aqui nunca teve esquerda” não para em pé:

Esfera (cargo votável) Quem a esquerda já elegeu em SC
Senado Ideli Salvatti (PT) — senadora por SC (2003–2011), depois ministra de Lula e Dilma; 1ª mulher de SC titular no Senado
Governo do estado Décio Lima (PT) — chegou ao 2º turno em 2022, inédito para a esquerda no estado
Câmara Federal Pedro Uczai, Décio Lima, Ana Paula Lima e José Fritsch — todos do PT, em legislaturas diferentes
Assembleia (ALESC) Luciane Carminatti, Neodi Saretta, Padre Pedro Baldissera, Fabiano da Luz e Dirceu Dresch (PT); Rodrigo Minotto (PDT); Cesar Valduga (PCdoB)
Prefeituras Chapecó, Blumenau, Criciúma, Joinville e Concórdia já tiveram prefeitos do PT (detalhe abaixo)
Câmaras municipais Só o PT elegeu 142 vereadores em 87 cidades no último pleito; PSOL e PCdoB também elegem (Floripa, Criciúma, Chapecó)

E atenção a um detalhe que a narrativa também ignora: esquerda não é só PT. Em Santa Catarina já elegeram PDT, PCdoB, PSB e PSOL, além do PT. Em Florianópolis, a Frente Democrática de 2020 reuniu num mesmo palanque PSOL, PT, PSB, PCdoB, PDT e UP — e o PSOL de Marquito chegou ao 2º lugar na capital, com 22% dos votos válidos. Tem esquerda eleita em SC há décadas, em vários partidos e em todas as esferas que se votam.

No nível das prefeituras, a esquerda não só governou — foi reeleita em cidades grandes do estado:

Nome Cidade Partido Período Reeleito?
José Fritsch Chapecó PT 1997–2002 Sim (2000)
Pedro Uczai Chapecó PT 2002–2004 —
Décio Lima Blumenau PT 1997–2004 Sim (2000)
Neodi Saretta Concórdia PT 2001–2008 Sim (2004)
Décio Góes Criciúma PT 2001–2004 —
Carlito Merss Joinville PT 2009–2012 —

Repare num detalhe delicioso: as gestões petistas de Chapecó (Fritsch/Uczai) e de Criciúma (Décio Góes) adotaram Orçamento Participativo — exatamente o modelo nascido em Porto Alegre. A esquerda que se elege em SC não veio do Nordeste: ela tem método gaúcho, e a explicação está no mapa.

O fator mais perturbador: a esquerda de SC é, na origem, gaúcha

Agora o ponto que fecha o argumento. Olhe onde a esquerda ganha em Santa Catarina: no Oeste (Chapecó, Concórdia, Xanxerê, São Lourenço do Oeste) e na região carbonífera de Criciúma. Não é coincidência. O Oeste catarinense foi colonizado por gaúchos — descendentes de colonos italianos e alemães que desceram do Rio Grande do Sul a partir das primeiras décadas do século XX, em fluxo intenso entre 1940 e 1960. A própria Chapecó nasceu de uma colonizadora vinda de Passo Fundo/RS (a Ernesto Bertaso & Cia). Chimarrão, CTG, tradição: o Oeste é, cultural e demograficamente, uma extensão do Rio Grande do Sul dentro de SC.

E os principais líderes do PT catarinense são, todos, filhos dessa colonização gaúcha: José Fritsch (nascido em Ipumirim), Pedro Uczai (Descanso), Neodi Saretta (Jaborá), Padre Pedro Baldissera (Caxambu do Sul) e Dirceu Dresch (Saudades) — todos nascidos em cidades do Oeste fundadas e povoadas por gaúchos. A esquerda eleita de SC não brotou de voto nordestino: brotou da população de raiz gaúcha que colonizou o Oeste.

É aqui que a narrativa se inverte de vez. O gaúcho não traz só o título de eleitor — traz o próprio candidato. Um nome de esquerda nordestino dificilmente colheria votos em Santa Catarina. Mas um nome de esquerda saído do Oeste gaúcho colhe o voto da sua própria gente — e se elege, deputado, prefeito, senador. A esquerda catarinense fala com sotaque do Sul, toma chimarrão e desce do Rio Grande. Não vem de Pernambuco.

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Cruzando tudo: a correlação que a narrativa ignora

Junte as quatro camadas de dado e o quadro fica claro:

  • Voto: o RS é estruturalmente ~12 pontos mais à esquerda que SC (TSE, 2014–2022).
  • Volume: o RS é o maior emissor de migrantes para SC, com 26,8% do fluxo — o que move a urna é volume, e o volume é gaúcho (IBGE, Censo 2022).
  • Trabalho: o RS tem a tradição sindical e de greve mais antiga do país; SC virou o estado de pleno emprego que absorve o migrante.
  • História: a esquerda eleita do Sul nasceu no RS (Porto Alegre, Orçamento Participativo) e foi importada para SC — não do Nordeste.

“Antes de culpar o título de eleitor que veio de longe, vale olhar o que veio de perto: o maior fluxo migratório de SC atravessa uma fronteira estadual de poucos quilômetros, não dois mil.”

— Leitura dos dados do Censo 2022

O contraponto honesto: SC continua sendo direita

Aqui é preciso ser justo com os números. Santa Catarina não está “virando esquerda”. Em 2022, Bolsonaro fez 69,3% no estado, contra 30,7% de Lula. SC segue como um dos estados mais conservadores do país, e nenhum grupo migrante mudou isso no nível macro. A palavra “destruindo” é provocação — proposital — para chamar atenção a um ponto que os dados sustentam com folga: a narrativa que elegeu o nordestino como vilão da política catarinense está olhando para o lado errado do mapa. Se há um vetor de esquerda chegando por migração, ele fala com sotaque gaúcho, faz churrasco e conhece o Orçamento Participativo de cor.

Outubro de 2026: quando o mito vai voltar a viralizar

Guarde a data: o 1º turno das eleições gerais é em 4 de outubro de 2026, com eventual 2º turno em 25 de outubro. E não é uma eleição qualquer — é a maior de todas. Em Santa Catarina, o eleitor vai escolher de uma só vez:

Cargo em disputa em SC — Eleições 2026 Vagas
Presidente da República 1 (nacional)
Governador de Santa Catarina 1
Senador 2 (renovação de 2/3 do Senado)
Deputado Federal 16
Deputado Estadual (ALESC) 40

É justamente na reta final, em setembro e outubro, que o discurso vai esquentar — e a aposta segura é que os vídeos xenófobos contra o nordestino voltem a viralizar nos grupos de WhatsApp de Santa Catarina, repetindo o mesmo enredo de “vieram destruir o estado com o título de eleitor”. Só que, a essa altura do texto, você já tem os números na mão para responder. O eleitorado que mais cresce em SC e que mais pende para a esquerda não desembarcou de Pernambuco: ele desceu do Rio Grande do Sul, de chimarrão na mão, e vota abertamente na esquerda há décadas — PT, PDT, PCdoB, PSTU —, sem se esconder. Enquanto a internet procura um culpado lá longe, o dado aponta para o vizinho de cerca.

“O mais curioso da xenofobia eleitoral catarinense é a mira: ela acusa quem vem de longe e vota pouco, e dá passe livre para quem vem de perto, em peso, e vota na esquerda sem disfarce.”

Confira você mesmo: as fontes oficiais

Não acredite em post de WhatsApp — nem neste artigo. Todos os números aqui vêm de fontes públicas e oficiais. Cruze por conta própria:

Migração, emprego e PIB

Histórico político

Por que isso importa para o seu bolso

No fim, toda essa briga é sobre uma coisa só: quem controla as regras do jogo — impostos, gasto público, inflação. E é exatamente aí que entra uma lição prática. Você não controla como o vizinho vota, nem para que lado o estado pende na próxima eleição. Mas você controla onde guarda o seu dinheiro.

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Perguntas Frequentes

Os gaúchos estão mesmo destruindo Santa Catarina?

“Destruindo” é provocação. O que os dados mostram é que, se algum grupo migrante leva um eleitorado mais à esquerda em volume para SC, é o gaúcho — o maior fluxo migratório do estado (26,8%) e um eleitorado ~12 pontos mais à esquerda que o catarinense. Culpar o nordestino, que chega em volume muito menor, não bate com os números.

Os gaúchos votam mais à esquerda que os catarinenses?

Sim. No 2º turno presidencial, o candidato do PT teve 46,5% no RS contra 35,4% em SC (2014), 36,8% contra 24,1% (2018) e 43,7% contra 30,7% (2022). O Rio Grande do Sul vota cerca de 12 pontos mais à esquerda que Santa Catarina, de forma consistente. Fonte: TSE.

Os nordestinos estão mudando o voto de Santa Catarina?

Os dados não sustentam isso. O maior grupo de migrantes que entrou em SC entre 2017 e 2022 é gaúcho (26,8%), seguido de paranaenses (19,1%). Nordestinos são minoria no fluxo. Por eleitor o nordestino vota mais à esquerda, mas o que muda a urna é volume — e o volume é gaúcho. Fonte: IBGE, Censo 2022.

Santa Catarina tem esquerda eleita?

Sempre teve, em todas as esferas e em vários partidos (PT, PDT, PCdoB, PSOL). Ideli Salvatti (PT) foi senadora por SC; o PT já governou Chapecó, Blumenau, Criciúma, Joinville e Concórdia, elegeu deputados federais (Pedro Uczai, Ana Paula Lima) e estaduais, e levou Décio Lima ao 2º turno ao governo em 2022. A ideia de que “não existe esquerda em SC” é um mito.

Santa Catarina virou um estado de esquerda?

Não. Em 2022, Bolsonaro fez 69,3% no estado. SC segue como um dos mais conservadores do Brasil. A migração não mudou isso no nível macro — o artigo trata de qual narrativa os dados sustentam, não de uma suposta “virada”.

Quando são as eleições de 2026 e quais cargos estão em disputa em SC?

O 1º turno é em 4 de outubro de 2026 e o eventual 2º turno em 25 de outubro. Em Santa Catarina o eleitor escolhe presidente, governador, 2 senadores (renovação de 2/3 do Senado), 16 deputados federais e 40 deputados estaduais.

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