O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevou drasticamente a tensão comercial com o Brasil ao anunciar nesta quarta-feira (9) uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados para território americano, válida a partir de 1º de agosto. A medida, muito superior aos 10% inicialmente aplicados em abril, causou pânico nos mercados financeiros brasileiros e expôs as fissuras diplomáticas entre os dois países.
As motivações políticas por trás da tarifa
Diferentemente de uma disputa comercial tradicional, Trump deixou claro que suas motivações são fundamentalmente políticas e geopolíticas. A carta enviada ao presidente Lula revela três frentes principais de pressão:
1. Apoio explícito a Bolsonaro
Trump classificou o julgamento de Bolsonaro como uma “vergonha internacional” e uma “caça às bruxas”, pedindo que seja encerrado imediatamente. O ex-presidente americano vê em Bolsonaro um aliado estratégico e considera sua perseguição judicial um ataque direto aos interesses americanos na região.
2. Guerra contra as plataformas digitais
Um dos pilares centrais da ofensiva é a acusação de que o STF “emitiu centenas de ordens de censura secretas e ilegais” contra plataformas americanas, ameaçando-as com “multas de milhões de dólares”. Trump vê essa regulação como um ataque direto à soberania digital americana.
A questão ganhou força após Mark Zuckerberg criticar “tribunais secretos” em países latino-americanos que ordenam remoção de conteúdo de forma discreta, numa clara referência ao Brasil. A Meta já sinalizou que não cumprirá mais as decisões do STF sem processo legal formal.
3. Ofensiva contra o BRICS
Trump demonstra profunda preocupação com o fortalecimento do bloco e especialmente com os planos de desdolarização defendidos por Lula, que quer ver o BRICS “menos dependente do uso do dólar nas transações internas”.
Em novembro, Trump já havia ameaçado tarifas de 100% contra países do BRICS que tentassem substituir o dólar, e o chanceler russo Sergey Lavrov apontou Lula como “o iniciador da discussão sobre sistemas de pagamento alternativos”.
O alinhamento controverso de Lula
O governo Lula tem adotado posições que irritam profundamente Washington, especialmente em três áreas:
Relações com o Irã
Lula mantém uma relação próxima com o regime iraniano, tendo até autorizado a entrada de navios de guerra iranianos no Brasil. Recentemente, o Brasil condenou “com veemência” os ataques americanos contra instalações nucleares iranianas, numa postura que destoa completamente dos aliados ocidentais.
Apoio à Rússia
O presidente brasileiro tem mantido uma posição ambígua sobre a guerra na Ucrânia, inclusive viajando para Moscou para encontrar Putin durante as celebrações dos 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial.
Defesa do BRICS
Lula reafirmou recentemente que “não aceita nenhuma reclamação contra a reunião do BRICS” e que o mundo “precisa encontrar um jeito de que nossa relação comercial não precise passar pelo dólar”.
O preço da teimosia diplomática
José Augusto de Castro, presidente da AEB, alertou que a tarifa de 50% “ultrapassa todos os limites” e pode criar a impressão de que “o Brasil cometeu algo gravíssimo”, fazendo com que “na dúvida, ninguém vai querer fazer negócio com a gente”.
O Brasil está literalmente na encruzilhada geopolítica. De um lado, Trump oferece uma porta de saída: “não haverá tarifa se empresas brasileiras decidirem construir ou fabricar seus produtos dentro dos Estados Unidos”. Do outro, Lula insiste em confrontar a maior economia do mundo.