Correios acumulam prejuízo de R$ 6 bilhões em 2025. Entenda como a estatal saiu do lucro de R$ 2,3 bi no governo Bolsonaro para a maior crise financeira de sua história no governo Lula. Mas como uma empresa com imunidade tributária total — que não paga ISS, IPVA, IPTU nem Imposto de Renda — chegou a esse ponto justamente na era de ouro do e-commerce? A resposta envolve gestão, política e uma ironia cruel do destino.
Os dados mostram um padrão claro: de 2017 a 2021, os Correios registraram cinco anos consecutivos de lucro, acumulando quase R$ 4 bilhões em ganhos. A partir de 2022, a situação se inverteu completamente.
O Que Aconteceu no Governo Bolsonaro (2019-2022)
Durante o governo Bolsonaro, os Correios passaram por uma reestruturação significativa que resultou nos melhores números da história recente da empresa.
Principais Medidas Adotadas
Corte de benefícios: Mais de 70 benefícios extras foram eliminados, reduzindo significativamente os custos operacionais.
Programa de Demissão Voluntária (PDV): O quadro de funcionários foi reduzido de 115 mil para aproximadamente 88 mil colaboradores.
Gestão técnica: Segundo a gestão da época, houve substituição de indicações políticas por profissionais com experiência técnica.
Adequação contábil: Foram incluídas nos balanços provisões para cerca de 100 mil ações judiciais trabalhistas que antes não apareciam nas demonstrações financeiras.
O Fator Pandemia
É importante reconhecer que parte do lucro de 2020 e 2021 foi impulsionado pelo boom do e-commerce durante a pandemia de COVID-19. Com as pessoas em casa, as compras online explodiram e os Correios se beneficiaram diretamente desse movimento.
No entanto, esse fator externo não explica sozinho a diferença: outras empresas de logística também se beneficiaram da pandemia, mas não reverteram para prejuízos bilionários nos anos seguintes.
O Que Mudou no Governo Lula (2023-2025)
A partir de 2023, os Correios entraram em uma espiral descendente que se acelerou dramaticamente em 2025. Diversos fatores contribuíram para esse cenário.
Taxa das Blusinhas
Em julho de 2024, entrou em vigor a “taxa das blusinhas”, que impôs 20% de Imposto de Importação sobre compras internacionais acima de US$ 50, além de 17% de ICMS. O resultado foi uma queda de 11% nas compras internacionais realizadas por brasileiros.
Para os Correios, que processavam grande parte dessas encomendas, o impacto foi devastador. A receita com serviços internacionais caiu drasticamente, e a própria estatal cita essa mudança regulatória como um dos principais fatores para a queda de receita.
Explosão de Despesas
Enquanto a receita caía, as despesas disparavam:
Despesas administrativas: Saltaram de R$ 3,14 bilhões (jan-set 2024) para R$ 4,82 bilhões no mesmo período de 2025 — alta de 53,5%.
Ações judiciais trabalhistas: O aumento de despesas decorre principalmente do crescimento de decisões judiciais definitivas com desfecho desfavorável à empresa.
Despesas com precatórios: Cresceram 512% no primeiro semestre de 2025.
Perda de Competitividade
A própria estatal reconhece que enfrenta “a transformação acelerada do setor privado de logística, impulsionada pelo crescimento do e-commerce, pela tecnologia e por modelos de entrega cada vez mais rápidos e agressivos”. Empresas como Loggi, Jadlog, Amazon e outras têm conquistado fatias cada vez maiores do mercado — mesmo pagando todos os impostos que os Correios não pagam.
O Paradoxo da Imunidade Tributária
Talvez o aspecto mais surpreendente dessa crise seja o fato de que os Correios gozam de imunidade tributária total, decidida pelo STF em 2013. A estatal não paga ISS, IPVA, IPTU, ICMS nem Imposto de Renda.
Estimativas apontam que, sem essa isenção, os Correios teriam acumulado prejuízos superiores a R$ 15 bilhões na última década. Ou seja, a imunidade tributária é o que mantém a empresa minimamente viável.
A ironia é cruel: mesmo com essa vantagem competitiva gigantesca, a estatal está perdendo mercado para empresas privadas que pagam todos os tributos. Isso levanta questões sérias sobre eficiência de gestão e modelo de negócios.
O Que Esperar do Futuro
A nova gestão dos Correios apresentou um plano de reestruturação que prevê:
Empréstimo de R$ 20 bilhões: Para garantir liquidez e viabilizar a transição estrutural planejada.
Retorno ao lucro apenas em 2027: A projeção oficial é pessimista quanto aos próximos dois anos.
Privatização descartada: O ministro Fernando Haddad e o governo Lula afirmam que não há debate sobre privatizar a empresa. É mais fácil sacrificar o bem está do brasileiro aumentando impostos do que reconhecer o fracasso da gestão petista.
O Senado abriu investigação sobre a gestão dos Correios em outubro de 2025, e o TCU acompanha o caso. A oposição critica o empréstimo bilionário como “mascaramento de má gestão”.
Correios: Uma Crise Anunciada?
Independentemente de preferências políticas, os fatos são incontestáveis: os Correios saíram de uma sequência de lucros (2017-2021) para a maior crise de sua história (2022-2025). O prejuízo de R$ 6 bilhões em apenas nove meses de 2025 é o maior já registrado pela estatal.
A combinação de aumento de despesas, queda de receitas internacionais, perda de competitividade para o setor privado e decisões judiciais trabalhistas desfavoráveis criou uma tempestade perfeita.
O debate sobre privatização, que parecia encerrado com a vitória de Lula em 2022, pode voltar à pauta se a situação continuar se deteriorando. Afinal, uma empresa que acumula prejuízos bilionários mesmo sem pagar impostos representa um custo crescente para o contribuinte brasileiro.
A pergunta que fica é: até quando os Correios conseguirão sobreviver nesse modelo?