O investidor que previu o colapso de 2008 agora vê paralelos assustadores entre os subprimes e os data centers de inteligência artificial.
Burry voltou!
Agora, quase duas décadas depois, Burry voltou.
E dessa vez, seu alvo é a inteligência artificial. Em novembro de 2025, registros da SEC revelaram que a Scion Asset Management, o fundo de Burry, comprou US$ 912 milhões em opções de venda (puts) contra a Palantir e US$ 187 milhões contra a Nvidia. Para quem não está familiarizado com o jargão: ele está apostando mais de US$ 1 bilhão que essas ações vão despencar. A pergunta que todo investidor deveria estar fazendo é:
ele está certo novamente?
O Déjà Vu de 2008
Para entender a tese de Burry, precisamos voltar ao passado. Em 2005, quando ele começou a apostar contra o mercado imobiliário, a lógica era simples, mas contra-intuitiva: os bancos estavam emprestando dinheiro para pessoas que claramente não conseguiriam pagar. Esses empréstimos eram então empacotados em produtos financeiros complexos (os famosos CDOs) e vendidos como investimentos “seguros”.
O problema? Quando os mutuários começaram a dar calote, todo o castelo de cartas desabou. Bancos quebraram. O governo teve que intervir com trilhões em resgates. Milhões perderam suas casas.
Burry vê um padrão semelhante na atual febre da IA.
A Anatomia da Bolha de IA
Em entrevista recente ao podcast de Michael Lewis (o autor do livro que originou o filme), Burry explicou sua visão: “O que você vê em todas as bolhas anteriores é que o pico do mercado de ações foi antes de você estar sequer na metade do gasto de capital. Na maioria dos casos, os gastos nem tinham atingido o pico ainda.”
Traduzindo: as empresas ainda estão construindo data centers freneticamente, mas o mercado pode colapsar antes mesmo de esses investimentos serem concluídos.
Os números são impressionantes. Hyperscalers como Amazon, Microsoft e Google quadruplicaram seus gastos de capital nos últimos anos, chegando a quase US$ 400 bilhões anuais. A expectativa é de US$ 3 trilhões nos próximos cinco anos. Só a OpenAI, a empresa por trás do ChatGPT, tem compromissos de infraestrutura superiores a US$ 1,4 trilhão.
Mas aqui está o problema: a OpenAI está prestes a ultrapassar US$ 20 bilhões em receita anualizada — um número impressionante, mas minúsculo comparado ao tamanho dos investimentos sendo feitos. Em 2024, a empresa gastou cerca de US$ 9 bilhões e registrou prejuízo de US$ 5 bilhões.
O Circo dos Acordos Circulares
A notícia que viralizou esta semana ilustra perfeitamente o problema: a Amazon está negociando investir US$ 10 bilhões na OpenAI, o que elevaria sua avaliação para mais de US$ 500 bilhões.
Parece ótimo, certo? Mas olhe mais de perto.
A OpenAI já tem um contrato de US$ 38 bilhões para comprar serviços de nuvem da Amazon Web Services até 2032. Ou seja, a Amazon investe dinheiro na OpenAI, e a OpenAI usa esse dinheiro para pagar a Amazon. É um jogo de passa-repassa com bilhões de dólares. Esse padrão se repete com outras gigantes. A OpenAI investiu US$ 350 milhões na CoreWeave, que usou o dinheiro para comprar chips da Nvidia. Esses mesmos chips fornecem computação para a OpenAI, o que aumenta a receita da CoreWeave e, por tabela, valoriza a participação da OpenAI. É um ciclo que se retroalimenta.
Phil Clifton, ex-gerente de portfólio da Scion e considerado por Burry “o pensador mais prodigioso” que já conheceu, traça um paralelo com o boom das telecomunicações do início dos anos 2000. Na época, investimentos massivos em redes de fibra óptica ultrapassaram muito a demanda real. A utilização da capacidade nos EUA caiu para cerca de 5%, e os preços de telecomunicações no atacado colapsaram 70% em um único ano.
A Nvidia é a Nova Cisco?
Quando a Nvidia mencionou Burry em um comunicado a Wall Street para refutar suas análises — e afirmar que “não são a Enron” — ele respondeu em seu Substack: a Nvidia não é como a Enron, mas sim como a Cisco.
Essa comparação é devastadora.
A Cisco foi o coração da bolha dot-com. Suas ações subiram mais de 1.000% entre 1995 e 2000, tornando-a brevemente a empresa mais valiosa do mundo. Quando a bolha estourou, a Cisco perdeu 86% do seu valor — e suas ações nunca mais voltaram ao pico de 2000.
A Nvidia hoje controla entre 80% e 90% do mercado de chips de IA e GPUs para data centers. Atingiu uma avaliação de US$ 5 trilhões no pico de 2025, com margens brutas acima de 70%. Seu CEO, Jensen Huang, tornou-se uma celebridade do mundo tech.
Mas Burry aponta para vulnerabilidades críticas: dependência de poucos clientes gigantes, exposição a controles de exportação e tensões entre EUA e China, e o risco de que avanços em eficiência algorítmica reduzam a necessidade de poder computacional bruto.
O Muro Técnico
Há outro fator que poucos estão discutindo publicamente, mas que é um segredo cada vez menos guardado nos laboratórios de IA: os modelos de linguagem podem estar atingindo um teto.
As “leis de escala” que impulsionaram o progresso exponencial dos LLMs (Large Language Models) estão mostrando retornos decrescentes. A ideia de que simplesmente adicionar mais dados e computação resultaria em inteligência cada vez maior pode ter sido otimista demais.
Pesquisadores apontam que melhorar a qualidade dos LLMs está se tornando exponencialmente mais difícil. É como espremer uma laranja: os primeiros apertos rendem muito suco, mas cada aperto subsequente exige mais força para menos resultado.
Ilya Sutskever, co-fundador da OpenAI, admitiu publicamente que “atingimos o pico dos dados” — a maior parte do texto de alta qualidade disponível na internet já foi usada para treinamento. Encontrar novas fontes de dados em escala suficiente é cada vez mais difícil.
Os 5 Gatilhos do Colapso
Com base na análise de Burry e de outros especialistas, podemos identificar cinco cenários que poderiam desencadear o estouro da bolha:
O primeiro cenário é a estagnação técnica. Se os modelos de IA pararem de melhorar significativamente apesar de investimentos crescentes, a justificativa para trilhões em gastos desaparece.
O segundo cenário envolve a crise na cadeia de suprimentos. A concentração extrema na Nvidia e a dependência de Taiwan para fabricação de chips criam vulnerabilidades geopolíticas. Uma escalada nas tensões com a China poderia paralisar toda a indústria.
O terceiro cenário é o colapso dos acordos circulares. Quando uma peça do dominó cair — seja uma startup que não consegue pagar suas contas de nuvem ou um hyperscaler que corta investimentos — o efeito cascata pode ser brutal.
O quarto cenário são as tarifas e guerra comercial. As tarifas de Trump já estão tornando a construção de data centers mais cara. Uma recessão nos EUA reduziria gastos com publicidade digital, afetando a receita dos hyperscalers e sua capacidade de continuar investindo.
O quinto cenário é a baixa adoção real. Se as empresas não conseguirem demonstrar retorno sobre investimento concreto em IA, os orçamentos serão cortados. Já há sinais de que muitos projetos de IA corporativa estão sendo abandonados por falta de resultados práticos.
Se você investe em ações de tecnologia, este é o momento de reexaminar sua exposição. Burry não está dizendo que a IA é inútil — está dizendo que os preços atuais não refletem a realidade dos lucros.
Se você está no mercado de criptomoedas, vale notar que Burry também é cético sobre o Bitcoin, chamando-o de “tulipa do nosso tempo”. No entanto, paradoxalmente, um colapso nos mercados tradicionais poderia criar oportunidades para ativos descorrelacionados..