Entre 17 e 24 de agosto, cerca de 12 mil transferências minúsculas — muitas valendo centavos — saíram de uma carteira ligada à HTX e caíram em endereços da Kraken. Ninguém pediu, ninguém aceitou. Mesmo assim, clientes da corretora ficaram temporariamente trancados fora das próprias contas. A Kraken chamou o episódio pelo nome técnico: dust attack.

O que é um dust attack
Dust (poeira) é qualquer valor tão pequeno que não compensa nem pagar a taxa de rede para movimentá-lo. Um dust attack é o envio deliberado dessas migalhas para milhares de endereços de uma vez. Historicamente, o objetivo era rastrear: se a vítima juntar aquela poeira com o resto do saldo em uma transação futura, o atacante consegue ligar vários endereços à mesma pessoa e quebrar seu anonimato.
O caso da Kraken usou o mesmo mecanismo com outra finalidade, e é isso que o torna importante: o objetivo aparente era disparar checagens de compliance, espalhando fundos de origem sancionada por milhares de contas de uma corretora regulada.
| Tipo de ataque | Objetivo | Quem sofre |
|---|---|---|
| Dusting clássico | Rastrear e desanonimizar carteiras | Usuário de carteira própria |
| Address poisoning | Plantar endereço parecido no histórico para você copiar errado | Quem copia endereço do histórico |
| Dusting de compliance o caso Kraken | Contaminar contas com fundos sancionados e travar a corretora | Cliente de exchange regulada |
Por que a Kraken travou as contas
A HTX foi sancionada pela União Europeia em julho de 2026, sob a acusação de ajudar russos a contornar sanções. Para uma corretora regulada, receber recurso de uma entidade sancionada não é detalhe: é obrigação legal de reter, reportar e apurar. Os sistemas automáticos de compliance fizeram exatamente o que deveriam fazer — e, como o volume foi de 12 mil transferências, o efeito colateral atingiu muita gente ao mesmo tempo.
“O time de compliance se mobilizou rapidamente para restaurar o acesso, mantendo retidos os fundos sancionados conforme exigido.”
— Kraken, em comunicado
A atribuição, porém, é disputada. A Arkham identificou a carteira como ligada à HTX a partir de endereços que a própria corretora divulgou publicamente em sua prova de reservas. A HTX nega ter feito os envios e afirma que a origem pode ter sido identificada de forma equivocada, ou refletir ação maliciosa de terceiros. E há um detalhe incômodo que dá peso à dúvida: em blockchain pública, qualquer um pode mandar cripto para qualquer endereço, sem autorização do destinatário. Inclusive de propósito, para causar exatamente esse problema.
O que fazer se cair poeira na sua carteira
Regra de ouro: não movimente
- Não gaste a poeira. Em carteiras de Bitcoin e outras redes com UTXO, juntar aquele valor com o seu saldo em uma transação é o que entrega a ligação entre seus endereços. Se sua carteira permite coin control, marque aquele valor como “não gastar”.
- Não interaja com token desconhecido. Token que aparece do nada, com nome apelativo ou promessa de resgate, costuma ser isca. Aprovar a transação de um contrato falso é o que drena a carteira — não o recebimento em si.
- Nunca copie endereço do histórico. É assim que funciona o address poisoning: o golpista planta um endereço quase idêntico ao que você usa, contando que você copie do extrato em vez do original.
- Se travou na corretora, abra chamado e espere. Não tente contornar com outra conta ou outro CPF — isso, sim, vira problema de verdade no compliance.
- Receber não é crime. Você não controla quem envia para o seu endereço público. O que pesa é o que você faz com o valor depois de saber da origem.
A lição estrutural: custódia importa
Esse episódio expõe uma assimetria que muita gente descobre no pior momento. Na corretora, seu saldo depende do compliance dela. Um evento externo — que você não causou, não pediu e não podia evitar — foi suficiente para trancar contas de terceiros. Foi resolvido rápido, mas foi resolvido por outra pessoa, no tempo dela.
É o mesmo tipo de risco que apareceu quando a Binance bloqueou depósitos vindos da HTX, EXMO, NoOnes e outras 13 plataformas e quando a NoOnes anunciou o encerramento das atividades. Muda o nome da empresa; a lição continua a mesma: saldo em corretora é uma promessa de pagamento; saldo em carteira própria é o ativo.
O ataque em números
~12.000
Transferências enviadas
17–24/08
Janela do ataque
centavos
Valor típico de cada envio
jul/2026
Sanção da UE à HTX
Perguntas Frequentes
O que é um dust attack?
É o envio deliberado de valores minúsculos de criptomoeda para milhares de endereços ao mesmo tempo. No formato clássico, serve para rastrear e desanonimizar quem recebe, caso a pessoa junte aquela poeira com o restante do saldo em uma transação futura. No caso da Kraken, o objetivo aparente era disparar checagens de compliance espalhando fundos de origem sancionada.
Por que clientes da Kraken foram bloqueados?
Porque a HTX foi sancionada pela União Europeia em julho de 2026. Ao receber recursos ligados a uma entidade sancionada, os sistemas automáticos de compliance da Kraken restringiram as contas atingidas. O acesso foi restaurado, mas os fundos sancionados permaneceram retidos.
Recebi poeira na minha carteira. Devo fazer alguma coisa?
Não movimente o valor. Se a sua carteira tiver controle de moedas (coin control), marque aquele valor para não ser gasto. Não interaja com tokens desconhecidos que apareceram sozinhos e nunca copie endereços do histórico de transações — é assim que funciona o golpe de envenenamento de endereço.
Receber criptomoeda de origem suspeita é crime?
Receber, por si só, não é. Em uma blockchain pública qualquer pessoa pode enviar valores para o seu endereço sem a sua autorização, e você não tem como impedir. O que importa é o que se faz depois de conhecer a origem — por isso a orientação é não movimentar e comunicar a corretora quando o caso envolver conta em plataforma regulada.
A HTX assumiu o envio das transferências?
Não. A HTX negou ter realizado os envios e afirmou que a origem pode ter sido identificada de forma equivocada ou refletir ação maliciosa de terceiros. A Arkham Intelligence vinculou a carteira à HTX com base em endereços que a própria exchange divulgou em sua prova de reservas.
Como reduzir esse tipo de risco?
Mantendo o essencial fora da corretora. Saldo em exchange depende do compliance e da operação daquela empresa; saldo em carteira própria, com as chaves no seu aparelho, não trava por causa de um evento na conta de outra pessoa.
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