Análise revela como dissidências das FARC e o Estado Mayor Central utilizam criptomoedas em plataformas sem KYC para financiar operações terroristas. Recentes ataques coordenados em Cali e Antioquia expõem vulnerabilidades no sistema financeiro e o risco de usuários comuns se tornarem inadvertidamente cúmplices em esquemas de lavagem de dinheiro através de transações P2P não verificadas.
Contexto dos Recentes Atentados
Os atentados ocorridos em 21 de agosto de 2025 na Colômbia marcam uma escalada preocupante na violência perpetrada por grupos armados ilegais no país. Dois ataques coordenados – um carro-bomba em Cali e um ataque a helicóptero policial em Antioquia – resultaram em mais de 18 mortos e 80 feridos, deixando o país em estado de alerta máximo.
As autoridades colombianas, incluindo o Ministro da Defesa Pedro Arnulfo Sánchez, atribuíram estes ataques às dissidências das FARC, especificamente ao grupo liderado por “Iván Mordisco” e ao Frente 36 do Estado Mayor Central (EMC). Estes grupos, que rejeitaram o acordo de paz de 2016, têm intensificado suas operações e aprimorado suas capacidades operacionais e financeiras.
O Papel das Criptomoedas no Financiamento do Terrorismo
Uma tendência alarmante identificada por agências de inteligência e segurança é o crescente uso de criptomoedas por grupos armados ilegais para financiar suas operações. Esta evolução nas práticas financeiras representa um desafio significativo para as autoridades, uma vez que oferece a estes grupos maior anonimato e alcance internacional.
Métodos Utilizados pelos Grupos Armados
Os grupos armados como as dissidências das FARC têm adotado estratégias sofisticadas para movimentar recursos via criptomoedas:
Atomização de fundos: Divisão do dinheiro ilícito em pequenas quantias distribuídas entre múltiplas contas e carteiras digitais
Operações P2P sem KYC: Transações diretas entre indivíduos não verificados sem intermediação de instituições reguladas
Uso da dark web: Realização de operações em ambientes digitais não indexados, dificultando o rastreamento
Conversão multi-etapas: Transformação do dinheiro físico em criptomoedas e depois em outras moedas digitais antes da reconversão final para dinheiro físico
O Perigo das Plataformas P2P sem Verificação Adequada
As plataformas de negociação peer-to-peer (P2P) sem procedimentos rigorosos de KYC (Know Your Customer) e KYT (Know Your Transaction) representam uma vulnerabilidade crítica no sistema financeiro global. Estas plataformas se tornaram o método preferido por grupos criminosos na América Latina para lavar dinheiro e financiar atividades ilícitas.
Riscos para Usuários Legítimos
Para usuários comuns de criptomoedas, existe um risco significativo de se tornarem inadvertidamente cúmplices em esquemas de lavagem de dinheiro ao utilizarem plataformas P2P sem verificação adequada:
Contaminação por dinheiro ilícito: A probabilidade de receber fundos provenientes de atividades criminosas é extremamente alta em plataformas sem verificação rigorosa
Contas laranjas: Muitas contas em plataformas P2P são criadas com documentos falsos ou pertencem a “laranjas” – pessoas que emprestam seus dados para criminosos
Uso de contas de terceiros: Criminosos frequentemente utilizam contas bancárias de terceiros para receber ou enviar pagamentos, dificultando o rastreamento
MED (Estorno de PIX): Após receber criptomoedas, os criminosos frequentemente realizam estorno de valores, pelo MED, lesando assim quem aceitou dinheiro sem confirmar a origem.
Implicações Legais e Riscos para Investidores
É fundamental que usuários de criptomoedas compreendam que, mesmo sem intenção criminosa, podem enfrentar consequências legais graves por participarem de transações que envolvam recursos ilícitos:
Responsabilidade criminal: Em muitas jurisdições, incluindo o Brasil, a participação em transações ligadas à lavagem de dinheiro, mesmo sem conhecimento direto, pode resultar em acusações criminais
Bloqueio de fundos: Autoridades podem congelar ativos suspeitos de conexão com atividades criminosas
Investigações prolongadas: Usuários podem se ver envolvidos em investigações complexas que podem durar anos
Danos reputacionais: O envolvimento em investigações sobre lavagem de dinheiro pode causar danos permanentes à reputação pessoal e profissional
Desafios para as Autoridades
Um relatório menciona conexões entre o PCC (organização criminosa brasileira) e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) para facilitar o tráfico de cocaína na América do Sul, com indícios de uso de banco digital e criptomoedas.
A vantagem oferecida pela transparência do blockchain tem levado autoridades, como o agente Patrick O’Kain da DEA, a afirmar que prefere que criminosos usem criptomoedas para lavagem de dinheiro, pois isso facilita o rastreamento das transações comparado a métodos tradicionais.
A Chainalysis, empresa especializada em análise de dados em blockchain, identificou que cartéis de drogas no México e na Colômbia estão utilizando criptomoedas para transações ilícitas, assim como os traficantes que contrabandeiam cocaína da América do Sul para outras regiões.
Conforme um relatório da IntSights, as plataformas P2P (peer-to-peer) são frequentemente o método preferido para trocas de moeda fiduciária por criptomoedas em toda a América Latina, devido à menor regulamentação e fiscalização dessas transações.