Durante 13 anos, uma carteira de Bitcoin ficou trancada por uma senha que ninguém lembrava. O dono nunca perdeu o arquivo — ele só não conseguia abri-lo. Em junho de 2026, depois de anos de pedidos de ajuda em fóruns, no Telegram e no maior grupo de Bitcoin da Argentina, uma comunidade inteira se uniu e fez o impossível: recuperou 16,5 BTC perdidos desde 2013. E a senha, revelada no final, virou piada e lenda ao mesmo tempo.

wallet.dat sobreviveu por mais de uma década e a comunidade se mobilizou. A senha era uma frase de 20 caracteres: “pera5durasnopera5lus”. Foi quebrada em segundos — depois que alguém descobriu o padrão certo.
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O que aconteceu: 16,5 BTC de volta depois de 13 anos
O caso explodiu no grupo Bitcoin Argentina, um dos mais antigos da América Latina. O dono da carteira, Guillermo Ariel Ramirez, nascido em 1969, tinha criptografado uma carteira do Bitcoin Core lá em 2013 — e, como tanta gente fez naquela época, não deu a menor importância. Ao longo daquele ano foi comprando aos poucos (um DCA, na prática). Quando quis sacar, descobriu que não fazia ideia de qual era a senha.
O herói da história não é o dono, e sim Marcelo Bianchi (@marcebit), um especialista em recuperação de cripto que atua há quase 10 anos na comunidade. Ele mesmo contou como tudo começou: “Anos atrás, eu trabalhava num projeto de recuperação de cripto num PC. Entre os arquivos, encontrei a carteira do Ariel, que aparentemente tinha tentado recuperar seus fundos. Procurei por todos os lados…” Bianchi adotou o caso, rastreou o contexto e transformou um arquivo esquecido num mutirão público.
Para organizar o esforço, ele abriu um grupo no Telegram (t.me/walletdecrypt), ofereceu uma recompensa e — detalhe crucial — montou tudo com uma metodologia que nunca expõe a chave com os fundos. Centenas de pessoas entraram na brincadeira. No dia 16 de junho de 2026, veio o anúncio que ninguém esperava mais:
“Resuelto! 16.5 BTC recuperados!! Obrigado a todos que confiaram. A senha era ‘pera5durasnopera5lus’. 270 pessoas só no Telegram estavam tentando. Mais de um milhão de visualizações entre todas as redes!”
— Marcelo Bianchi, moderador do grupo Bitcoin Argentina
O resgate em números
16,5
BTC recuperados
US$ 1,03 mi
Valor hoje (≈ R$ 5,7 mi)
13 anos
Carteira travada
+1 milhão
Visualizações

189JveWz2WP79oYU9Gq4NUfiur…. Qualquer um podia conferir — ninguém podia gastar. Crédito: Blockchain.com.2013: quando esquecer a senha era perder tudo (e o “seed” nem existia)
Para entender o tamanho do feito, é preciso voltar a 2013. O Bitcoin começou aquele ano valendo cerca de US$ 13 e terminou batendo no recorde da época, próximo de US$ 1.100. As moedas que Ramirez foi guardando valiam, na época, de poucos dólares a algumas centenas. Ninguém imaginava que aquilo viraria um patrimônio de seis dígitos uma década depois.
Mais importante: em 2013, não existia o modelo de “frase semente” (seed phrase) que hoje todo mundo conhece — aquelas 12 ou 24 palavras que você anota num papel. As carteiras modernas usam o padrão BIP39, que só foi proposto em setembro de 2013 e só se popularizou de verdade a partir de 2014–2015, com carteiras como a Electrum 2.0 e os hardware wallets (Trezor, Ledger).
O Bitcoin Core daquela época funcionava de outro jeito. Sua carteira era um arquivo: o famoso wallet.dat. Dentro dele ficavam as chaves privadas. Se você ativasse a criptografia, esse arquivo era trancado por uma senha (passphrase) escolhida por você. Não havia 12 palavras para anotar — havia um arquivo para guardar e uma senha para lembrar. Perdeu a senha? Você ainda tinha o cofre na mão, mas sem a chave.
Como funciona a wallet.dat criptografada

Quando você clicava em “Encrypt wallet”, o Bitcoin Core não guardava sua senha em lugar nenhum. Ele usava a senha para derivar uma chave (rodando o algoritmo SHA-512 milhares de vezes — neste caso, 63.533 iterações) e, com ela, criptografava as chaves privadas dentro do wallet.dat usando AES-256.
O efeito prático: o arquivo continua aí, com todo o seu saldo registrado na blockchain, visível para o mundo inteiro. Mas as chaves que assinam as transações estão embaralhadas. Sem a senha exata, não há como gastar nada. E como o Bitcoin Core não guarda a senha, não existe “esqueci minha senha” — não tem botão de recuperação, não tem suporte, não tem e-mail. É você contra a matemática.
Repare o detalhe irônico: a própria tela já avisava em 2013 — “use uma senha de dez ou mais caracteres aleatórios, ou oito ou mais palavras”. Ramirez seguiu o conselho à risca. Boa demais: ela resistiu por 13 anos.
Por que o dono nunca teve medo de pedir ajuda
Aqui está a parte mais inteligente da história — e a dúvida que mais apareceu nos comentários: “E se quem descobrir a senha simplesmente roubar os fundos?”
Não dá. E o motivo é o que diferencia uma wallet.dat de uma seed phrase moderna.
Ramirez nunca compartilhou o arquivo wallet.dat. Ele guardou esse arquivo o tempo todo — em 13 anos, nunca o perdeu. O que ele divulgou para a comunidade foi apenas o hash da senha, um trecho extraído do arquivo que tem este formato:
$bitcoin$96$1bbd24dc0f23175483d619a24e15f4a06e7e1d3d8b13d9a979b7f4223792836f…$16$65e1017f33467568$63533$2$00$2$00
Esse hash permite que qualquer pessoa teste senhas offline, no próprio computador, sem internet — usando ferramentas como hashcat ou John the Ripper. Quando você acerta a senha, a ferramenta avisa: “encontrada!”. Bianchi chegou a publicar até uma página web offline — um “Manual Finder” — para que os curiosos testassem palpites direto no navegador, sem instalar nada. Foi nela que, ao digitar a frase certa, apareceu o aviso definitivo: “Lo lograste!” (“Você conseguiu!”).
Mas — e esse “mas” é tudo — o hash não contém as chaves privadas. Ele só serve para confirmar quando uma senha está certa. Quem descobre a senha ganha a recompensa e a glória, mas não consegue mover um único satoshi: para isso seria preciso ter o arquivo wallet.dat real, que só o Ramirez tinha.
wallet.dat é só a fechadura de um cofre que continua na mão do dono. Por isso Ramirez pôde abrir o desafio para o mundo inteiro sem nenhum risco de ser roubado.
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As pistas: um formulário de 2013 e 13 anos de tentativas
Desde que travou a carteira, Ramirez vinha pedindo ajuda em fóruns como o Bitcointalk, em outros grupos, no Telegram e no grupo Bitcoin Argentina. Ainda em 2013, ele preencheu um formulário descrevendo seus hábitos de senha — uma espécie de mapa da própria memória. Esse documento virou a peça-chave da investigação.

O que o formulário revelava:
- Sem símbolos e sem espaços — senha alfanumérica pura.
- Comprimento entre 7 e 15 caracteres (ele lembrava vagamente disso).
- Costumava capitalizar a inicial das palavras.
- Um hábito forte: trocar “z” por “s” e vice-versa — sotaque típico argentino (durazno → durasno, luz → lus).
- Palavras que usava com frequência:
pera,durazno,luz,asadera,colimba. - Números recorrentes: 5, 6, 7, 8 e a sequência 231661.
A recompensa foi subindo conforme o desafio ganhava fama, chegando a 0,5 BTC (cerca de US$ 30 mil) para quem entregasse a senha. O endereço público da carteira (começando por 189JveWz2WP79oYU9Gq4NUfiur...) podia ser conferido por qualquer um na blockchain — o saldo estava lá, à vista, intocável.
Como a senha finalmente caiu
Dezenas de pessoas tentaram. Uma das que mais se dedicou foi Alejandro Ponicke, que relatou a saga nos comentários — e o depoimento dele é uma aula:
“Passei DIAS tentando recuperá-la. Rodei de tudo com 4 placas de vídeo sem parar: dicionários, nomes, datas, gírias, até bilhões de senhas vazadas reais… mais de 4 bilhões de tentativas e nada. O mais louco: as palavras ‘pera’, ‘dura’ e ‘luz’ estavam no dicionário que usei. Eu tinha os ingredientes. Mas não me ocorreu encadear 4-5 palavras assim.”
— Alejandro Ponicke
O ponto de virada foi mudar de estratégia: em vez de testar palavras soltas com variações, montar uma lista que encadeava as palavras do jeito que Ramirez pensava — palavras grudadas, com a troca z↔s e o “5” no lugar do “s”. Quando essa lista entrou no hashcat, o resultado foi instantâneo:
A senha quebrada
pera5durasnopera5lus
Modo hashcat -m 11300 (Bitcoin/Litecoin wallet.dat). Status: Cracked. Tempo: 20 segundos — depois que o candidato certo entrou na lista.
Leia em voz alta: “peras duras no peras lus” — “peras duras, não peras moles”, com o “5” substituindo o “s” e a troca de z por s. Uma frase boba sobre frutas, montada com hábitos pessoais que só Ramirez tinha. Como brincou um dos membros do grupo: “Viram como a vida complica quando você mistura peras com pêssegos?” Outro resumiu a façanha: “Houve toda uma investigação da vida do sujeito, da qual saiu um enigma digno de uma proeza do FBI.”
Um detalhe curioso fecha o capítulo: segundo o próprio Bianchi, a pessoa que efetivamente quebrou a senha preferiu não aparecer. Recebeu a recompensa e sumiu das redes — “como se nunca tivesse existido”. O crédito, diz ele, é da comunidade inteira: a senha caiu graças a um espectro de pistas dado pelo dono, dados vazados na dark web e padrões gerais de senha cruzados pelos participantes do grupo no Telegram.
A lição: uma frase-senha longa é praticamente inquebrável
Esse caso é o melhor argumento possível a favor das frases-senha longas. Veja a matemática que o próprio Ponicke explicou:
A regra de ouro que fica:
| Tipo de senha | Resistência a força bruta |
|---|---|
| 8 caracteres aleatórios | Fraca — quebra rápido |
| 1 palavra do dicionário | Fraca — está nas listas |
| Palavra + números (ex.: maria123) | Média — previsível |
| 4-5 palavras encadeadas (20+ chars) | Forte — inviável por força bruta |
O paradoxo do caso Ramirez: a senha era tão boa que nem o próprio dono conseguiu lembrar dela por 13 anos. Daí a importância de fazer backup correto — seja da frase-senha, seja da seed phrase moderna — guardado em lugar seguro e, de preferência, em mais de uma cópia física.
A comunidade fez o que nenhuma exchange faria
Mais do que um caso técnico, essa é uma história sobre o que torna o Bitcoin diferente. Não houve suporte de empresa, não houve “central de atendimento”. Houve 270 pessoas no Telegram, milhares de comentários, gente rodando placas de vídeo de graça noites a fio, só pela honra do desafio e por uma recompensa simbólica. Mais de um milhão de visualizações acompanharam o desfecho. E, no fim, um senhor argentino reencontrou um patrimônio de mais de R$ 5 milhões que ele já tinha dado por perdido.
Não é a primeira vez: Bianchi havia organizado um mutirão parecido em 2018, quando a comunidade quebrou a senha de uma carteira Litecoin (24 LTC) — a senha era adrian1987. Recuperação de cripto bem-feita é assim: paciência, método e gente confiável. Vale o alerta oposto também — durante este caso, houve quem tentasse cobrar só para “intermediar” a conversa. O caminho honesto não exige que você entregue suas chaves nem pague pedágio para respirar.
“Felicitações! E nem imagino a alegria do dono.”
— Comentário no grupo Bitcoin Argentina
E se a carteira esquecida for a sua?
Nem toda história tem 270 voluntários e um milhão de visualizações para ajudar. Se você tem uma carteira antiga, um wallet.dat travado, uma seed incompleta ou uma senha que não lembra direito, a BitcoinP2P oferece um serviço de recuperação de bitcoins: analisamos o seu caso com a mesma lógica usada aqui — reconstruir o padrão humano por trás da senha, sem nunca pedir o controle dos seus fundos.
E quando você recuperar (ou quando quiser comprar e vender com tranquilidade), a gente também cuida da parte fácil: negociar Bitcoin de pessoa para pessoa (P2P), com PIX, sem burocracia e sem entregar a custódia das suas moedas.
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Perguntas Frequentes
É possível recuperar um Bitcoin perdido?
Depende do que foi perdido. Se você ainda tem o arquivo wallet.dat ou a carteira, mas esqueceu a senha, há chance real de recuperação testando padrões prováveis — foi o que aconteceu com os 16,5 BTC do caso argentino. Se você perdeu a seed phrase e o acesso ao dispositivo, aí sim os fundos costumam ficar inacessíveis para sempre.
O que é o arquivo wallet.dat?
É o arquivo do Bitcoin Core que guarda as chaves privadas da sua carteira. Em 2013, antes do padrão de seed phrase (12 palavras), era assim que você fazia backup: guardando esse arquivo e lembrando a senha que o criptografava.
Quem descobre a senha pode roubar os bitcoins?
No caso do desafio, não. O dono divulgou apenas o hash da senha, que permite testar palpites offline, mas não contém as chaves privadas. Só quem tem o arquivo wallet.dat original consegue mover os fundos. É a grande diferença para uma seed phrase, que dá controle total a quem a conhece.
Qual era a senha dos 16,5 BTC?
A senha era pera5durasnopera5lus — uma frase em espanhol argentino (“peras duras no peras lus”) com o “5” no lugar do “s” e a troca de z por s. Tinha 20 caracteres, o que a tornou imune à força bruta por 13 anos.
Como criar uma senha de carteira realmente segura?
Use uma frase-senha longa: 4 ou mais palavras encadeadas, somando 20+ caracteres. É fácil de lembrar e matematicamente inviável de quebrar por força bruta. E faça backup da seed/senha em local seguro — de preferência em mais de uma cópia física.
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