Fintech britânica Revolut, avaliada em US$ 75 bilhões, anunciou a integração da Lightning Network do Bitcoin em sua plataforma. Com mais de 65 milhões de usuários ao redor do mundo, essa decisão representa um dos maiores avanços na adoção institucional da tecnologia de pagamentos baseada em Bitcoin.
O Que é a Lightning Network e Por Que Ela Importa
A Lightning Network é um protocolo de segunda camada construído sobre a blockchain do Bitcoin. Ela foi desenvolvida para resolver um dos principais desafios da rede principal: a escalabilidade. Enquanto o Bitcoin processa cerca de sete transações por segundo, a Lightning Network praticamente elimina esse limite, permitindo milhões de transações instantâneas.
Na prática, isso significa que usuários podem enviar e receber Bitcoin em milissegundos, pagando taxas próximas de zero. Para se ter uma ideia, enquanto uma transação comum na rede principal do Bitcoin pode custar entre dois e cinco dólares durante períodos de congestionamento, a mesma operação via Lightning custa frações de centavo.
O funcionamento da Lightning Network baseia-se em canais de pagamento bidirecionais. Duas partes abrem um canal depositando Bitcoin em um endereço multiassinatura na blockchain principal. A partir daí, podem realizar quantas transações quiserem entre si sem tocar a blockchain, registrando apenas a abertura e o fechamento do canal na rede principal.
Como Funciona a Parceria Entre Revolut e Lightspark
A integração da Revolut com a Lightning Network acontece por meio da Lightspark, empresa fundada por David Marcus. Marcus é um nome de peso no setor de pagamentos digitais: foi presidente do PayPal, liderou o desenvolvimento do Facebook Messenger e comandou o projeto Libra (depois renomeado Diem) na Meta.
A Lightspark oferece infraestrutura corporativa para empresas que desejam implementar pagamentos via Lightning Network. A empresa desenvolveu o que chama de MoneyGrid, um sistema de roteamento de pagamentos que conecta mais de 300 milhões de usuários em mais de 140 países.
Para a Revolut, a parceria significa que seus clientes no Reino Unido e em países do Espaço Econômico Europeu poderão realizar transferências de Bitcoin praticamente instantâneas e com custos reduzidos. A fintech não precisará desenvolver toda a infraestrutura técnica internamente, aproveitando a expertise da Lightspark.
David Marcus declarou que os bancos tradicionais dependem de sistemas de pagamento lentos e caros, comparáveis à internet discada em um mundo que usa 5G. Para ele, o Bitcoin e a infraestrutura baseada em blockchain representam o futuro do dinheiro.
A Revolut em Números: Uma Gigante das Fintechs
Para entender o impacto dessa integração, é importante conhecer a dimensão da Revolut. A fintech encerrou 2024 com receita de US$ 4 bilhões, um crescimento de 72% em relação ao ano anterior. O lucro antes de impostos saltou 149%, alcançando US$ 1,4 bilhão.
Em novembro de 2025, a empresa concluiu uma rodada de investimentos que elevou sua avaliação de US$ 45 bilhões para US$ 75 bilhões. A operação foi liderada por grandes fundos como Coatue, Greenoaks, Dragoneer e Fidelity, com participações adicionais da Andreessen Horowitz, Franklin Templeton e do braço de venture capital da Nvidia.
A base de clientes da Revolut ultrapassou 65 milhões de pessoas globalmente. A empresa obteve licença bancária no Reino Unido em 2024 e já possui autorizações para operar como banco no México e na Colômbia. O Brasil faz parte dos mercados onde a fintech atua, embora ainda com uma presença mais discreta comparada a outros países.
A ambição declarada do CEO Nik Storonsky é transformar a Revolut no primeiro banco verdadeiramente global, atendendo 100 milhões de clientes em 100 países.
Por Que as Grandes Exchanges e Fintechs Estão Adotando a Lightning Network
A Revolut não está sozinha nesse movimento. A adoção da Lightning Network por grandes players do mercado financeiro tem acelerado significativamente nos últimos anos.
A Coinbase, maior exchange de criptomoedas dos Estados Unidos, integrou a Lightning Network em abril de 2024. Desde então, cerca de 15% do volume de transações de Bitcoin na plataforma passou a utilizar essa tecnologia. A Binance adicionou suporte à Lightning em julho de 2023, enquanto a Kraken fez o mesmo em 2022 e a Bitfinex em 2019.
A Square, empresa do grupo Block liderada por Jack Dorsey, anunciou a expansão da aceitação de pagamentos em Bitcoin para seus 4 milhões de comerciantes. A iniciativa utiliza a Lightning Network e não cobrará taxas dos comerciantes até 2027.
A empresa Strike, focada exclusivamente em pagamentos via Lightning, processou US$ 6 bilhões em volume de transações em 2024. Esses números demonstram que a tecnologia deixou de ser um experimento de entusiastas para se tornar uma infraestrutura de pagamentos viável em escala comercial.
Vantagens da Lightning Network Para Usuários e Comerciantes
Para usuários comuns, a Lightning Network oferece três benefícios principais. O primeiro é a velocidade: transações são confirmadas em milissegundos, não em minutos ou horas. O segundo é o custo: as taxas são praticamente inexistentes para pagamentos do dia a dia. O terceiro é a granularidade: é possível enviar frações mínimas de Bitcoin, viabilizando micropagamentos que seriam inviáveis na rede principal.
Para comerciantes, as vantagens incluem a eliminação de estornos (chargebacks), a ausência de intermediários financeiros e a liquidação instantânea dos valores. Enquanto redes tradicionais como Visa e Mastercard cobram entre 2% e 3% por transação, a Lightning Network reduz esse custo drasticamente.
Dados da Glassnode indicam que a taxa média de transação na Lightning Network é de aproximadamente 0,0029%, cerca de mil vezes mais barata que as redes de cartões de crédito tradicionais.
Impactos Para o Mercado Brasileiro de Criptomoedas
O Brasil tem se destacado como um dos principais mercados para criptomoedas na América Latina. Grandes varejistas brasileiros como Magazine Luiza e Mercado Livre já vendem Bitcoin em suas plataformas. Especialistas do setor apontam que a integração de criptomoedas como meio de pagamento é uma tendência natural para 2025.
A chegada da Revolut com suporte à Lightning Network pode intensificar a competição no mercado brasileiro de fintechs. Exchanges e casas de câmbio digitais locais precisarão avaliar se faz sentido implementar essa tecnologia para oferecer transferências mais rápidas e baratas aos seus clientes.
Para operadores de market maker no Brasil, a Lightning Network abre possibilidades interessantes. A capacidade de processar pagamentos instantâneos com taxas baixas pode melhorar significativamente a experiência do cliente em operações de compra e venda de Bitcoin.
O Que Esperar Para o Futuro dos Pagamentos com Bitcoin
A integração da Lightning Network por uma fintech do porte da Revolut sinaliza uma mudança importante na percepção do Bitcoin. Durante anos, a principal criptomoeda do mundo foi vista primariamente como reserva de valor, semelhante ao ouro digital. A adoção em larga escala da Lightning Network pode resgatar a visão original de Satoshi Nakamoto: um sistema de dinheiro eletrônico peer-to-peer para pagamentos do dia a dia.
Empresas como Lightspark continuam desenvolvendo ferramentas que simplificam a implementação da Lightning Network. O Universal Money Address, por exemplo, permite que usuários enviem e recebam fundos usando identificadores simples, semelhantes a endereços de email, eliminando a complexidade das longas strings alfanuméricas típicas de carteiras de criptomoedas.
A Tether, emissora da stablecoin USDT, também lançou sua moeda na Lightning Network, permitindo transferências de dólares digitais com a mesma velocidade e custo baixo das transações de Bitcoin.
Para fintechs, exchanges e casas de câmbio, a mensagem é clara: a infraestrutura de pagamentos baseada em Bitcoin está amadurecendo rapidamente. Empresas que não acompanharem essa evolução podem ficar em desvantagem competitiva em um mercado cada vez mais focado em velocidade, custo e experiência do usuário..