Na quarta-feira (12), Donald Trump assinou um memorando que cria um programa de operações cibernéticas ofensivas contra organizações criminosas transnacionais. Na prática, os Estados Unidos ganham autorização formal para vigiar, interromper, degradar e até destruir sistemas, redes e infraestruturas digitais usadas por esses grupos. E dois nomes brasileiros estão na linha de tiro em potencial: o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho (CV), que desde junho constam na lista americana de organizações terroristas estrangeiras (FTO).

O que exatamente Trump autorizou
O memorando assinado em 12 de agosto estrutura a ofensiva em duas frentes. As Operações de Vigilância Cibernética são voltadas à coleta de informações e inteligência sobre os grupos. Já as Operações de Efeitos Cibernéticos vão além: podem manipular, interromper, bloquear, degradar ou destruir sistemas, redes e infraestruturas digitais utilizadas pelas organizações na mira.
Dois detalhes chamam atenção. Primeiro, empresas privadas americanas poderão participar das operações — depois de selecionadas e sob controle e autorização do governo. Segundo, as regras operacionais serão detalhadas nos próximos 60 dias, quando ficará claro como os alvos serão escolhidos. Ou seja: a máquina foi ligada agora, e até outubro saberemos contra quem ela aponta primeiro.
O PCC e o CV entram nessa equação por já estarem formalmente classificados pelos EUA como organizações criminosas transnacionais e, desde junho, como organizações terroristas estrangeiras — a mesma categoria jurídica de grupos como Sinaloa, Tren de Aragua e MS-13, alvos declarados da política antiterror americana.
A escalada: da designação terrorista à guerra cibernética
| Data | O que aconteceu | Status |
|---|---|---|
| Fev/2025 | EUA designam cartéis latinos (Sinaloa, Tren de Aragua, MS-13) como terroristas | Precedente |
| Ago/2025 | Diretiva secreta autoriza o Pentágono a usar força militar contra cartéis designados | Escalada |
| 28/05/2026 | PCC e CV viram “terroristas globais especialmente designados” (SDGT) | Brasil na mira |
| 05/06/2026 | Designação de PCC e CV como organizações terroristas estrangeiras (FTO) entra em vigor | Brasil na mira |
| 01/07/2026 | Primeiras sanções do Tesouro (OFAC) contra operadores e empresas ligadas ao PCC | Sanções ativas |
| 12/08/2026 | Trump autoriza operações cibernéticas ofensivas contra organizações criminosas | Guerra digital |
“Comando Vermelho e PCC estão entre as organizações criminosas mais violentas do Brasil. Juntas, comandam milhares de membros e orquestraram ataques brutais contra policiais, autoridades públicas e civis brasileiros.”
— Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA
A máquina de golpes que financia as facções
Se a ofensiva americana é cibernética, é porque o dinheiro do crime brasileiro é cada vez mais digital. O relatório “O Estado dos Golpes no Brasil 2026”, da Global Anti-Scam Alliance (GASA), contabilizou 34 bilhões de tentativas de golpes digitais entre março de 2025 e fevereiro de 2026. Nesse período, 16,5 milhões de brasileiros perderam dinheiro — R$ 21,2 bilhões no total, uma média de R$ 1.287 por vítima. Contando apenas fraudes com Pix e boleto falso, outra estimativa aponta 24 milhões de vitimados e R$ 29 bilhões em perdas em 12 meses.
O repertório é conhecido de qualquer família brasileira:
- A ligação de dentro do presídio: o “falso sequestro” e o “disque-extorsão” operados de celulares contrabandeados — só nos presídios do Rio, 7 mil aparelhos foram apreendidos em dois anos. Quadrilhas como a “Povo de Israel” montaram verdadeiras centrais de extorsão atrás das grades;
- A falsa central de atendimento: o golpista liga “do banco”, manda a vítima retornar para um 0800 falso e, do outro lado, um “atendente” esvazia a conta;
- O boleto falso que chega em casa: cobrança clonada com código de barras adulterado, visualmente idêntica à original;
- A clonagem de cartão: ainda entre os golpes mais citados pelas vítimas no país;
- O WhatsApp como porta de entrada: 64% das vítimas apontam o aplicativo como canal da fraude — o “parente pedindo dinheiro” continua campeão.
O tamanho do crime no Brasil
R$ 21,2 bi
Perdidos em golpes digitais em 1 ano (GASA)
R$ 146,8 bi
Faturamento anual do crime em mercados legais (FBSP)
R$ 453 bi
Faturamento das facções em 3 anos (CNI/Fiesp/Firjan)
34 bi
Tentativas de golpe digital em 12 meses
Da boca de fumo à Faria Lima
O salto de sofisticação ficou explícito na Operação Carbono Oculto, que revelou como o PCC usou fintechs como bancos paralelos para lavar dinheiro no coração do mercado financeiro brasileiro. Uma única fintech investigada movimentou mais de R$ 46 bilhões no período apurado; seis delas são suspeitas de movimentar R$ 26 bilhões da facção entre 2022 e 2024. As investigações encontraram R$ 30 bilhões do PCC aplicados em 40 fundos de investimento geridos na Faria Lima.
Com o dinheiro lavado, a facção comprou usinas de etanol, um terminal portuário, 1.600 caminhões, mais de 100 imóveis e até uma mansão de R$ 13 milhões em Trancoso. É esse ecossistema financeiro-digital — contas, painéis de pagamento, estruturas de fintech, infraestrutura de golpes — que uma ofensiva cibernética americana teria capacidade técnica de mapear, congelar e derrubar.
O que os EUA podem fazer na prática
Com a base jurídica da designação FTO somada ao novo programa cibernético, o arsenal americano contra PCC e CV inclui:
- Derrubar infraestrutura digital: centrais de phishing, painéis de disparo de golpes, servidores de comunicação e sistemas financeiros paralelos podem ser degradados ou destruídos remotamente;
- Inteligência financeira: vigilância cibernética sobre fluxos de lavagem — inclusive os que passam por fintechs, doleiros e cripto — alimentando sanções e processos;
- Sanções em cascata (OFAC): qualquer empresa, banco ou pessoa que transacione com um designado vira alvo potencial de sanção secundária — um risco direto para instituições brasileiras que fecharem os olhos para a origem do dinheiro;
- Asfixia bancária internacional: bancos correspondentes americanos são obrigados a bloquear recursos ligados a FTOs, apertando o funil de dólares das facções;
- Processos criminais nos EUA: apoio material a organização terrorista estrangeira é crime federal americano — o que alcança operadores financeiros em qualquer lugar do mundo.
Brasília reage: “soberania é inegociável”
A resposta do governo brasileiro à escalada americana tem sido uma só: soberania. O Planalto divulgou nota afirmando que o Brasil “rejeita qualquer forma de ingerência externa em seus assuntos internos” e que a soberania nacional é “inegociável”. O Ministério da Justiça sustenta que as designações americanas “só produzem efeitos dentro dos Estados Unidos” e não têm repercussão extraterritorial. Antes disso, o governo já havia recusado o pedido dos EUA para classificar PCC e CV como organizações terroristas na legislação brasileira.
Juristas apontam questões reais na discussão — a legislação brasileira separa facção criminosa de terrorismo, e a cooperação internacional tem ritos próprios. Mas para os críticos, sobra retórica e falta resultado: enquanto a diplomacia debate nomenclatura, as facções faturam bilhões, operam golpes de dentro dos presídios estatais e lavam dinheiro na principal avenida financeira do país. A pergunta desconfortável que o cidadão comum faz é simples: se o Estado brasileiro não consegue desligar a máquina de golpes, por que rejeitar de antemão quem se oferece para atacá-la?
“Todas as nações deveriam aprofundar e sofisticar seus mecanismos de combate ao crime organizado, desde que respeitada a soberania do outro país.”
— Ministério da Justiça, sobre as designações americanas
O que isso muda para quem usa Pix, banco e cripto no Brasil
Para o usuário comum, a ofensiva americana pode ter um efeito colateral positivo: golpe digital é o crime que mais toca a vida real das pessoas, e qualquer degradação séria da infraestrutura das quadrilhas — números, centrais, painéis de disparo, contas de passagem — se traduz em menos boleto falso no correio e menos ligação de “sequestro” de madrugada.
Para o mercado, o recado é de compliance: fintechs, exchanges e mesas OTC brasileiras passam a operar num mundo em que tocar dinheiro de PCC/CV é tocar dinheiro de organização terrorista aos olhos do maior sistema financeiro do planeta. Verificação de titularidade, monitoramento de origem de recursos e KYC deixam de ser burocracia e viram sobrevivência — exatamente o padrão que plataformas sérias já adotam, como a validação de titularidade em cada transação via Pix.
Perguntas Frequentes
O que Trump autorizou exatamente?
Um memorando assinado em 12/08/2026 cria um programa de operações cibernéticas ofensivas contra organizações criminosas transnacionais. Ele prevê operações de vigilância (coleta de inteligência) e operações de “efeitos” (interromper, degradar ou destruir redes e sistemas digitais dos grupos). As regras operacionais serão definidas em até 60 dias.
PCC e Comando Vermelho são considerados terroristas pelos EUA?
Sim. Desde 28/05/2026 são “terroristas globais especialmente designados” (SDGT) e, desde 05/06/2026, organizações terroristas estrangeiras (FTO) — mesma categoria de Sinaloa e Tren de Aragua. Em julho, o Tesouro americano aplicou as primeiras sanções contra operadores financeiros do PCC.
O governo brasileiro apoia as operações americanas?
Não. O Planalto afirma que a soberania nacional é “inegociável” e rejeita “ingerência externa”. O Brasil também recusou o pedido dos EUA para classificar PCC e CV como organizações terroristas na lei brasileira, argumentando que a legislação nacional trata facções por outro enquadramento.
Quanto o crime digital movimenta no Brasil?
Segundo a GASA, foram 34 bilhões de tentativas de golpes digitais entre março/2025 e fevereiro/2026, com 16,5 milhões de brasileiros lesados e R$ 21,2 bilhões perdidos. Só em fraudes com Pix e boleto falso, estimam-se R$ 29 bilhões em perdas. O crime organizado como um todo fatura R$ 146,8 bilhões por ano apenas em mercados legais, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
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