O Bitcoin rompeu os US$ 80 mil na madrugada desta terça-feira (25) e chegou a tocar US$ 81 mil, derrubando mais de US$ 240 milhões em posições vendidas em uma hora — US$ 225 milhões deles em uma janela de apenas 10 minutos. É a primeira vez desde maio que o preço trabalha acima dessa faixa. E o combustível não veio do varejo: os ETFs à vista dos Estados Unidos emendaram seis pregões seguidos de entrada líquida, somando US$ 2,26 bilhões.

O que aconteceu na madrugada
A sequência foi rápida. Por volta das 23h18 (horário de Brasília) de segunda, o Bitcoin cruzou os US$ 80 mil. Seis minutos depois já estava em US$ 81 mil, com US$ 225 milhões em posições vendidas sendo liquidadas do mercado de derivativos, segundo o Watcher Guru. A Cointelegraph contabilizou mais de US$ 240 milhões em shorts queimados na primeira hora do rompimento.
Liquidação de short não é sinal de compra saudável: é gente que apostou na queda sendo forçada a recomprar. Cada recompra forçada empurra o preço mais para cima, o que estoura o próximo vendido — o efeito cascata que o mercado chama de short squeeze. Foi isso que transformou um rompimento técnico em um salto de mil dólares em minutos.
Ao longo do dia o movimento perdeu tração. O Bitcoin recuou da faixa dos US$ 80 mil enquanto o ouro esfriava com a queda dos juros dos títulos americanos, voltou a superar US$ 81 mil à tarde e, à noite, US$ 115 milhões em posições compradas foram liquidados em uma hora. Em resumo: o dia inteiro foi de oscilação violenta entre US$ 79 mil e US$ 81 mil, com alavancagem sendo destruída nos dois sentidos.
Quem está comprando: os ETFs voltaram com força
O dado mais relevante do rompimento não está no gráfico de preço, está no fluxo. Os ETFs à vista de Bitcoin dos Estados Unidos registraram na segunda-feira (24) o sexto pregão consecutivo de entrada líquida, com mais US$ 337,6 milhões. A sequência chegou a US$ 2,26 bilhões.
| Indicador | Número | Leitura |
|---|---|---|
| Entrada na segunda (24/08) | US$ 337,6 milhões | 6º dia seguido |
| Sequência de 6 pregões | US$ 2,26 bilhões | positivo |
| Total de agosto | ~US$ 2,72 bilhões | recorde mensal |
| Recorde mensal anterior (abril) | ~US$ 1,97 bilhão | superado |
| Saídas acumuladas no ano | ~US$ 2,57 bilhões | encolhendo |
| Alta do Bitcoin em agosto | ~28% | melhor mês do ano |
O detalhe que mais importa está na última linha da tabela acima: 2026 foi, até aqui, um ano de saída líquida dos ETFs. Esse buraco encolheu para cerca de US$ 2,57 bilhões, segundo a SoSoValue. Em outras palavras, o mercado gastou seis pregões desfazendo boa parte do que sete meses de resgates tinham feito — e o patrimônio total desses fundos voltou a se aproximar dos US$ 100 bilhões.
O sinal paralelo: opções do IBIT
No mesmo dia, o IBIT, ETF da BlackRock, registrou volume recorde de opções de compra (calls) enquanto as entradas do fundo passavam de US$ 1 bilhão. Volume recorde de call não é só aposta direcional: é mesa institucional montando exposição alavancada para cima com risco limitado. É o tipo de posicionamento que aparece no começo de tendência, não no fim.
O gatilho macro: recompra de dívida e o “debasement trade”
A alta não nasceu do nada. Na semana passada, o Tesouro dos Estados Unidos ampliou o programa de recompra de dívida de longo prazo, movimento que injeta liquidez em dólar no sistema. Arthur Hayes, cofundador da BitMEX, resumiu o que muita mesa está pensando: o secretário Scott Bessent estaria repetindo a cartilha de Janet Yellen, usando emissão e recompra para irrigar o mercado — um cenário historicamente favorável ao Bitcoin.
“Ouro e Bitcoin voltando ao top 10 dos fundos mais negociados pode sinalizar que o debasement trade está substituindo a mania de IA.”
— Eric Balchunas, analista de ETFs da Bloomberg
Debasement trade é a aposta na desvalorização da moeda: quando o investidor deixa de perguntar “qual ação sobe mais?” e passa a perguntar “onde eu guardo valor enquanto imprimem?”. O pano de fundo ajuda a explicar: a dívida nacional americana passou de US$ 40 trilhões e já supera 123% do PIB — um tema que detalhamos aqui na semana passada.
Para quem está no Brasil, a tradução é direta: o mesmo movimento que empurra o Bitcoin para cima é o que corrói o poder de compra de quem guarda dinheiro parado — em dólar ou em real. Por isso tanta gente separa as duas coisas: Bitcoin como aposta de longo prazo e dólar digital (stablecoin) como caixa, sem depender de ordem de câmbio, horário bancário ou spread de banco.
Os níveis que decidem o próximo movimento
A CryptoQuant afirma que a alta de 24% deixou os principais indicadores em configuração de “fase inicial” de um novo mercado de alta — mas com uma ressalva importante: US$ 83 mil segue sendo o nível crucial. Abaixo disso, o movimento continua sendo recuperação dentro de um ciclo de baixa; acima, muda de categoria.
No Brasil, a leitura técnica converge. O analista Bernardo Pascowitch destacou no gráfico semanal a zona entre US$ 79 mil e US$ 83 mil — região que funcionou como suporte em 2025 e que agora precisa ser reconquistada por cima. Ele também apontou divergências de alta no curto prazo, sugerindo novo teste do topo, mas alertou para a exaustão do movimento: a cada nova máxima, a força compradora diminui.
| Nível | O que significa | Status |
|---|---|---|
| US$ 79 mil | Piso da zona que segurou o preço em 2025 | suporte imediato |
| US$ 80 mil | Barreira psicológica e gatilho da liquidação de shorts | rompida (25/08) |
| US$ 81 mil | Máxima do movimento | testada |
| US$ 83 mil | Confirmação de novo ciclo de alta (CryptoQuant) | pendente |
O que pode dar errado
Três alertas honestos, porque euforia costuma cobrar caro:
- Alavancagem alta nos dois lados. No mesmo dia em que US$ 240 milhões em shorts viraram pó, US$ 115 milhões em posições compradas foram liquidados. Mercado com alavancagem cheia se move rápido — e em qualquer direção.
- Sentimento em ganância. O índice de Medo e Ganância saltou de 55 para 83 em cinco dias, entrando em território de “ganância extrema”, segundo leitura citada pela OKX. Historicamente, é onde o dinheiro esperto começa a realizar lucro.
- O gatilho macro é externo. A alta apoia-se em decisões do Tesouro americano e no fluxo de ETFs. Nenhuma das duas coisas está sob controle de quem compra Bitcoin — e ambas podem virar em uma semana, como já viraram este ano.
O dia em números
US$ 81 mil
Máxima do movimento
US$ 240 mi
Shorts liquidados em 1h
US$ 2,26 bi
ETFs em 6 pregões
28%
Alta em agosto
Perguntas Frequentes
Por que o Bitcoin passou de US$ 80 mil?
A alta combinou fluxo e macro: os ETFs à vista dos EUA acumularam US$ 2,26 bilhões em seis pregões seguidos de entrada líquida, enquanto o Tesouro americano ampliou a recompra de dívida de longo prazo, movimento que injeta liquidez em dólar. O rompimento técnico dos US$ 80 mil liquidou mais de US$ 240 milhões em posições vendidas, o que acelerou o movimento.
O que é liquidação de shorts?
É o fechamento forçado de quem apostou na queda usando alavancagem. Quando o preço sobe além do limite da posição, a corretora encerra a operação comprando o ativo no mercado. Essas compras forçadas empurram o preço ainda mais para cima e disparam novas liquidações, num efeito cascata conhecido como short squeeze.
Quanto os ETFs de Bitcoin captaram em agosto de 2026?
Cerca de US$ 2,72 bilhões, segundo a CryptoRank, o que faz de agosto o melhor mês da história dos ETFs à vista de Bitcoin nos EUA, superando o recorde anterior de aproximadamente US$ 1,97 bilhão registrado em abril.
O Bitcoin entrou em um novo bull market?
A CryptoQuant afirma que os indicadores apontam para a fase inicial de um novo ciclo de alta, mas condiciona a confirmação à superação dos US$ 83 mil. Enquanto o preço ficar abaixo desse nível, o movimento é tecnicamente uma recuperação dentro do ciclo anterior.
Qual é a diferença entre guardar Bitcoin e guardar stablecoin?
Bitcoin é um ativo volátil, com potencial de valorização e de queda expressiva no curto prazo. Stablecoin (como USDT e USDC) é dólar digital, feita para manter o valor estável e funcionar como caixa. Muita gente usa os dois com papéis diferentes: Bitcoin como posição de longo prazo e stablecoin como reserva para movimentar no dia a dia.
Leia também: Dívida dos EUA passa de US$ 40 trilhões e Tesouro dobra recompras
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