A BlackRock cortou em 96% o valor mínimo para criar e resgatar cotas do IBIT — seu ETF de Bitcoin, o maior do mundo — entregando Bitcoin em vez de dinheiro. O piso caiu de US$ 25 milhões para US$ 1 milhão. A mudança foi revelada em atualização de registro na SEC e confirmada por Robbie Mitchnick, chefe de ativos digitais da gestora, e voltou ao radar do mercado nesta semana, com o Bitcoin acima dos US$ 80 mil e os ETFs em seis pregões seguidos de entrada líquida.

O que é criação e resgate in-kind
Todo ETF funciona com um mecanismo de bastidor. Instituições credenciadas — os participantes autorizados (APs) — criam ou destroem cotas em blocos grandes para manter o preço do fundo colado ao valor dos ativos que ele guarda. Há duas formas de fazer isso:
| Em dinheiro (cash) | Em espécie (in-kind) | |
|---|---|---|
| O que o AP entrega | Dólares | Bitcoin |
| O que o fundo faz | Compra Bitcoin no mercado | Recebe o Bitcoin direto |
| Passos de execução | Mais etapas, mais custo | Menos etapas, menos custo |
| Pressão no mercado à vista | Gera ordem de compra ou venda | Não gera |
| Eficiência tributária (EUA) | Menor | maior |
O in-kind só foi liberado para os ETFs de Bitcoin dos EUA em julho de 2025. Até lá, tudo era liquidado em dinheiro. Com o mínimo em US$ 25 milhões, porém, o mecanismo ficou restrito a um punhado de formadores de mercado e mesas institucionais grandes. Em US$ 1 milhão, o clube fica muito maior.
Por que a BlackRock está fazendo isso
A gestora foi explícita: o objetivo de longo prazo é zerar o mínimo. Cada corte é um passo para transformar o IBIT no trilho padrão de conversão de Bitcoin dentro da infraestrutura tradicional de corretagem — o lugar óbvio para onde uma instituição leva o Bitcoin quando quer transformá-lo em um papel que o sistema financeiro sabe processar, e vice-versa.
Quanto menor o mínimo, mais participantes conseguem arbitrar a diferença entre o preço da cota e o preço do Bitcoin. Mais arbitradores significa spread mais apertado — e um ETF que segue o ativo com mais fidelidade.
É também um sinal de amadurecimento de infraestrutura: liquidar em espécie exige custódia, controles e operação de nível institucional funcionando de forma rotineira. Baixar o piso em 96% indica que a BlackRock considera esse encanamento suficientemente sólido.
O que muda (e o que não muda) para quem está no Brasil
Vamos ser precisos, porque esse ponto costuma ser distorcido:
Não muda
- Você não pode entregar seus bitcoins e receber cotas do IBIT. O mecanismo in-kind é exclusivo dos participantes autorizados, não do investidor final — nem nos EUA, nem aqui.
- Não altera tributação no Brasil. As regras de ganho de capital sobre a venda de criptoativos seguem as mesmas; a eficiência tributária citada é do veículo americano.
- Não é oferta de produto novo. É um ajuste operacional na engrenagem de um ETF que já existia.
Muda
- Spread e aderência. Mais arbitradores tendem a manter a cota mais colada ao valor do Bitcoin, com custo menor de entrada e saída para quem opera o ETF.
- Menos ruído no mercado à vista. Criação em espécie não obriga o fundo a comprar Bitcoin no mercado. Parte do fluxo dos ETFs deixa de virar ordem visível no livro.
- Leitura de fluxo. Com mais criações em espécie, o número de entrada líquida em dólar passa a refletir menos diretamente a compra à vista. Vale lembrar disso antes de interpretar os dados diários de fluxo.
E há o dado de contexto que dá peso à mudança: mais de US$ 5 bilhões em Bitcoin já teriam migrado para o IBIT por esse mecanismo desde a liberação, segundo levantamento citado por canais de análise do mercado. Não é um detalhe técnico dormindo no registro da SEC — é um caminho que já move bilhões.
A mudança em números
US$ 25 mi
Mínimo anterior
US$ 1 mi
Mínimo novo
96%
Tamanho do corte
jul/2025
Liberação do in-kind nos EUA
Perguntas Frequentes
O que é criação in-kind em um ETF de Bitcoin?
É quando o participante autorizado entrega Bitcoin ao fundo e recebe cotas do ETF em troca, ou devolve cotas e recebe Bitcoin, sem que a operação passe por dinheiro. O modelo alternativo, chamado cash, exige que o fundo compre ou venda Bitcoin no mercado para atender à ordem.
Qual é o novo mínimo do IBIT?
US$ 1 milhão, contra os US$ 25 milhões anteriores — uma redução de 96%, revelada em atualização de registro na SEC e confirmada por Robbie Mitchnick, chefe de ativos digitais da BlackRock.
Eu posso trocar meus bitcoins por cotas do IBIT?
Não. O mecanismo in-kind é restrito aos participantes autorizados, as instituições credenciadas que criam e resgatam cotas do ETF em blocos. O investidor pessoa física continua comprando e vendendo cotas normalmente em bolsa, em dinheiro.
Por que essa mudança importa para o mercado?
Porque amplia o número de instituições capazes de arbitrar a diferença entre o preço da cota e o preço do Bitcoin. Isso tende a apertar o spread, melhorar a aderência do ETF ao ativo e reduzir a pressão de compra e venda direta no mercado à vista, já que a criação em espécie não obriga o fundo a operar no livro.
Isso muda alguma coisa na tributação de cripto no Brasil?
Não. As regras brasileiras de ganho de capital sobre a venda de criptoativos permanecem inalteradas. A eficiência tributária associada ao modelo in-kind diz respeito à estrutura do fundo americano.
A BlackRock vai reduzir ainda mais esse mínimo?
A gestora declarou que o objetivo de longo prazo é eliminar o mínimo por completo, o que sugere novas reduções à frente.
Leia também: Bitcoin rompe US$ 80 mil e liquida US$ 240 milhões em shorts
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