No domingo, 6 de setembro de 2026, cerca de 4.000 bitcoins saíram da carteira que garante a Liquid Network, a sidechain criada pela Blockstream em 2018 e usada por corretoras como Bitfinex para mover Bitcoin rápido e com privacidade. Eram quase todos os BTC guardados ali: a carteira tinha 4.205 BTC e ficou com 197. Em dólar, foram US$ 320 milhões em uma única transação. Na segunda-feira (7), os responsáveis devolveram 3.400 BTC e ficaram com 598,5 BTC, algo como US$ 47 milhões.

O que é a Liquid Network, em uma frase
A Liquid é uma rede paralela ao Bitcoin (uma sidechain). Você manda BTC para um endereço controlado por um grupo de 15 empresas (a “federação”), e recebe do outro lado um token chamado L-BTC, que vale 1 para 1 com Bitcoin. O L-BTC confirma em 1 minuto, esconde o valor das transações e serve para mover dinheiro entre corretoras sem esperar a blockchain do Bitcoin. Quando quiser sair, você devolve o L-BTC e a federação te paga em BTC. Esse processo de sair se chama peg-out.
A promessa central é simples: cada L-BTC em circulação tem 1 BTC guardado na carteira da federação. Foi exatamente essa promessa que quebrou.
O que aconteceu, passo a passo
A reconstrução abaixo usa os dados on-chain publicados pela Bitquery e as mensagens gravadas na própria blockchain do Bitcoin. Horários em Brasília.
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| Sex 04/09 e sáb 05/09 | O atacante deposita pouco mais de 2 BTC na Liquid e faz 92 transações de teste, ensaiando a carteira. |
| Dom 06/09, 08h30 | Três saques pequenos de teste (0,95, 1,71 e 0,55 BTC) pela SideSwap, para confirmar que o caminho de saída funciona. |
| Dom 06/09, 10h53 | A transação de “cunhagem”: o bug é acionado e cerca de 3.996 L-BTC aparecem do nada, sem Bitcoin por trás. |
| Dom 06/09, 11h06 | A SideSwap, serviço autorizado de saque, pede à federação o peg-out de 3.996 BTC. Para ela, o L-BTC parecia legítimo. |
| Dom 06/09, 11h28 | A federação paga. No mesmo bloco do Bitcoin (965.783), a SideSwap repassa 3.995,99 BTC ao atacante e fica com 0,1% de taxa. |
| Dom 06/09, 15h30 | O atacante grava uma mensagem no Bitcoin: “we are whitehats. contact us on chain” (somos white hats, fale conosco na blockchain). |
| Seg 07/09, 00h30 | Atacante: “Corrija o bug primeiro. A rede está em risco no commit atual. Garanta que todo nó esteja atualizado.” Blockstream responde: “Sim, obrigado.” |
| Seg 07/09, madrugada | A Liquid para de produzir blocos. Corretoras suspendem depósitos e saques de L-BTC. |
| Seg 07/09, 06h04 | Blockstream, com assinatura PGP: “Bridge nodes are patched, safe to return the funds” (nós da ponte corrigidos, seguro devolver). |
| Seg 07/09, tarde | 3.400 BTC voltam para a carteira da federação. O atacante fica com 598,5 BTC. |
Entre a cunhagem e o dinheiro cair na carteira do atacante passaram pouco mais de 20 minutos. Foi o tempo que levou para 95% de todo Bitcoin já depositado na Liquid sair da rede.
Como alguém “cria” Bitcoin do nada?
A resposta curta: não criou Bitcoin, criou L-BTC. E o L-BTC é só um registro dentro da Liquid dizendo “este saldo existe”. Quem decide se esse registro é válido são os nós da rede rodando o software Elements, mantido pela Blockstream.
A Liquid esconde os valores das transações usando um tipo de prova matemática chamada rangeproof. Para não verificar a mesma prova várias vezes, o Elements guarda em memória as provas já checadas, uma espécie de “cache”. O problema: o cache não anotava para qual ativo nem para qual endereço a prova valia. Um atacante paciente conseguiu fazer os nós “lembrarem” de uma prova válida e depois reaproveitá-la em uma transação que, na prática, inflava o saldo de L-BTC. A explicação completa está na nossa análise técnica do ataque.
O detalhe mais constrangedor: a correção desse bug já existia. Ela foi escrita em 3 de agosto e entrou no código público do Elements no GitHub entre 1º e 3 de setembro. Só que nenhuma versão oficial com o conserto tinha sido lançada. Todo nó da Liquid rodava software vulnerável quando o ataque veio, três dias depois.
Por que a SideSwap pagou?
A SideSwap é uma das plataformas autorizadas a pedir saques à federação. Ela recebeu L-BTC que, para todos os efeitos, era indistinguível de L-BTC legítimo, porque o próprio software da rede dizia que era válido. Ela pediu o peg-out, a federação aprovou e pagou. A SideSwap confirmou depois que sua chave não foi comprometida: o buraco estava no Elements, não nela. Ficou com 3,996 BTC de taxa pela transação.
White hat ou chantagem?
O atacante se apresentou como white hat, o hacker “do bem” que encontra falhas para avisar as empresas. Mas a ordem dos fatos incomodou muita gente. Um white hat clássico avisa primeiro, prova a falha com um valor simbólico e negocia uma recompensa. Aqui aconteceu o contrário: primeiro levaram US$ 320 milhões, depois abriram negociação. E ficaram com US$ 47 milhões sem nenhum acordo público de recompensa.
“Eles não parecem ser white hats, e também não parecem ser os criminosos de sempre.”
— Charles Guillemet, CTO da Ledger
“Se você explora uma vulnerabilidade, rouba 4 mil BTC e exige uma correção como resgate, isso é EXTORSÃO.”
— Alena Vránová, fundadora da Gart
Parte da comunidade foi além e levantou a hipótese de que o grupo poderia ser o Lazarus, os hackers ligados ao governo da Coreia do Norte responsáveis pelo roubo de US$ 1,5 bilhão da Bybit em 2025. Não há nenhuma evidência disso até agora, e a devolução de 85% do dinheiro não combina com o padrão do grupo. Discutimos os argumentos a favor e contra na análise técnica.
O que isso muda para quem tem Bitcoin
Se você tem BTC na sua carteira, na Bitcoin de verdade, nada mudou. O ataque nunca tocou a rede principal. Nenhuma regra do Bitcoin foi quebrada, nenhuma chave foi roubada. A federação assinou um saque que, do ponto de vista do Bitcoin, era um saque normal de uma carteira multisig.
Quem foi afetado:
- Quem tinha L-BTC (na Liquid, em corretoras ou em carteiras como Green, Aqua e SideSwap): os saques ficaram travados enquanto a rede esteve pausada. Com os 3.400 BTC de volta, a reserva cobre boa parte do que circula, mas os 598,5 BTC que ficaram com o atacante ainda representam um buraco.
- Corretoras que usam a Liquid para liquidação entre si: Bitfinex e outras suspenderam depósitos e saques de L-BTC.
- Outros ativos na Liquid, como USDT emitido na rede e o DePix brasileiro: não foram afetados diretamente. O bug inflou L-BTC, não os outros tokens.
O ataque em números
3.996 BTC
Sacados em uma transação
US$ 320 mi
Valor no momento do saque
3.400 BTC
Devolvidos em 07/09
598,5 BTC
Ficaram com o atacante (15%)
A lição que fica
A Liquid vendia segurança por dois motivos: a federação de 15 empresas e o fato de rodar código derivado do Bitcoin Core. O ataque mostrou que a federação não protege contra um bug de consenso. Se o software diz que um saldo é válido, os 15 assinam o saque sem pestanejar. Como resumiu Michael Folkson, colaborador do Bitcoin Core, na prática a rede funciona como “uma assinatura só”, e o multisig vira “teatro de segurança” quando todos confiam no mesmo programa.
Isso não é um problema exclusivo da Liquid. Toda sidechain e toda ponte entre blockchains depende de alguém, ou de algum código, garantindo que o token de um lado está lastreado no ativo do outro. Ronin (US$ 625 milhões, 2022), Wormhole (US$ 320 milhões, 2022) e a Harmony aprenderam isso do jeito difícil. Agora foi a vez da sidechain mais respeitada do ecossistema Bitcoin.
Para o investidor comum, o recado é o de sempre: Bitcoin na rede Bitcoin, na sua própria carteira, com suas próprias chaves. Qualquer coisa que se chame “Bitcoin” mas viva em outra rede é uma promessa de alguém. E promessas, como vimos no domingo, podem ser quebradas em 20 minutos.
Perguntas Frequentes
O Bitcoin foi hackeado?
Não. O ataque aconteceu na Liquid Network, uma rede separada que usa Bitcoin como lastro. A blockchain do Bitcoin funcionou normalmente e nenhuma regra dela foi violada. Quem guarda BTC na própria carteira não foi afetado.
O que é L-BTC?
É a versão do Bitcoin dentro da Liquid Network. Cada L-BTC deveria ter 1 BTC guardado na carteira da federação da Liquid. O ataque criou L-BTC sem esse lastro e trocou por BTC de verdade.
Quanto foi roubado e quanto voltou?
Saíram cerca de 3.996 BTC (US$ 320 milhões) no domingo, 6 de setembro. Na segunda, 7, o atacante devolveu 3.400 BTC e ficou com 598,5 BTC, cerca de US$ 47 milhões, ou 15% do total.
Quem foi o responsável?
Não se sabe. O grupo se apresentou como “white hat” em mensagens gravadas na blockchain do Bitcoin, mas agiu antes de avisar e ficou com parte do dinheiro. Há especulação sobre o grupo Lazarus, da Coreia do Norte, mas sem evidência.
A Liquid voltou a funcionar?
A Blockstream corrigiu os nós da ponte na segunda-feira e a rede retomou blocos, mas depósitos e saques de L-BTC seguiam suspensos na maioria das corretoras até a publicação deste artigo. Outros ativos emitidos na Liquid, como USDT, não foram afetados.
Leia também: Hack da Liquid: anatomia do exploit e a tese do Lazarus
Leia também: O que é sidechain: de Liquid a Polygon, e a lição do The DAO
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