O site ficou no ar por oito dias. Entre 16 e 23 de outubro de 2025, o Fxrpntwork.com prometia uma coisa simples: deposite seu XRP, receba de 1,5% a 1,8% ao mês, com o principal garantido. Setenta e uma pessoas depositaram. Saíram de lá 3,4 milhões de XRP — cerca de US$ 8,5 milhões, ou algo perto de R$ 43 milhões. Uma única vítima perdeu o equivalente a R$ 5,6 milhões.
Na quinta-feira, 30 de julho de 2026, a Agência Metropolitana de Polícia de Seul anunciou a prisão de três dos quatro suspeitos. O quarto está fora do país, com difusão vermelha da Interpol. E o detalhe que mais interessa a quem quer não ser o próximo: esse golpe não foi grosseiro. Ele foi construído com paciência, com atores pagos e com verbetes plantados na Wikipédia.

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Como o golpe funcionou
A engenharia do nome já era um trabalho de precisão. Os golpistas juntaram duas marcas reais do ecossistema — Flare Network, uma blockchain que de fato existe, e FXRP, um produto que de fato existe dentro dela — e registraram Fxrpntwork.com. Quem digitasse “FXRP” no Google e não olhasse a URL com atenção encontrava uma página com a cara certa, as cores certas e o vocabulário certo.
| Elemento | O que o golpe apresentava |
|---|---|
| Domínio | Fxrpntwork.com — mistura de “Flare Network” com “FXRP” |
| Janela de operação | 16 a 23 de outubro de 2025 — oito dias, e sumiu |
| Promessa | 1,5% a 1,8% ao mês (18% a 21,6% ao ano) em XRP |
| Gancho decisivo | “Principal garantido” |
| Caminho do dinheiro | Corretora nacional → corretora estrangeira → carteira dos golpistas |
Repare no caminho do dinheiro, porque ele é parte do golpe e não um detalhe operacional. A vítima era instruída a comprar XRP numa corretora coreana regulada, transferir para uma corretora estrangeira e só então mandar para a carteira indicada. Cada salto afastava o dinheiro de uma jurisdição onde alguém poderia travar a operação e perguntar “você tem certeza?”.
A parte que deveria assustar: a credibilidade era fabricada
O que separa esse caso de um golpe de WhatsApp qualquer é o investimento em parecer verdadeiro. Segundo a polícia de Seul, o grupo plantou informação falsa em quatro frentes ao mesmo tempo:
- Wikipédia — conteúdo falso inserido em verbetes, para que a consulta mais óbvia de quem desconfia retornasse confirmação.
- Blogs do Naver — o maior portal da Coreia do Sul, equivalente a plantar dezenas de posts em blogs bem ranqueados no Google brasileiro.
- Artigos de “notícia” — matérias fabricadas com aparência jornalística.
- YouTube com ator pago — e aqui está o detalhe mais frio de todos.
Os golpistas contrataram um ator — um dublê, de 34 anos, hoje entre os detidos — para se passar por especialista em cripto. Nos vídeos, ele explicava com naturalidade que o investidor “receberia de 750 mil a 900 mil wons por mês em Ripple”. Números específicos, ditos por alguém com cara de quem entende, num vídeo que qualquer um encontrava pesquisando o nome do produto.
“Qualquer pessoa pode ser vítima.”
— Funcionário de estatal coreana lesado no golpe, em entrevista à imprensa local
Esse é o ponto. As vítimas não foram ingênuas por não pesquisar. Elas pesquisaram — e encontraram exatamente o que os golpistas plantaram para que encontrassem. A verificação que a maioria de nós faz (buscar o nome, ver se aparece na Wikipédia, achar um vídeo explicando) foi antecipada e envenenada.
Por que gente experiente caiu: o produto real existe
Aqui está o núcleo técnico do caso, e a razão pela qual esse golpe funcionou melhor que a média.
A rede do XRP não tem staking. Nunca teve. O XRP Ledger não usa proof-of-stake — ele roda um mecanismo de consenso próprio, por validadores, que não distribui recompensa por travar moeda. Não existe, e nunca existiu, “deixar XRP parado rendendo juros” no protocolo do XRP. Quem oferece isso está oferecendo outra coisa, com outro risco, ou está mentindo.
Mas a Flare Network é real, e o FXRP também. A Flare é uma blockchain separada, com contratos inteligentes, que criou um sistema chamado FAssets. Ele permite “embrulhar” XRP e representá-lo na Flare como um token chamado FXRP, sobrecolateralizado e lastreado 1:1. A partir daí existem, de verdade, formas de obter rendimento — liquid staking via protocolos como o Firelight, que devolve um token stXRP, taxas de serviços que tomam emprestada a segurança econômica, estratégias de DeFi.
É por isso que dizer “pesquise antes de investir” não basta como conselho. A pessoa que pesquisou encontrou a Flare, encontrou o FXRP, viu que existiam mesmo — e concluiu que estava tudo certo. O que faltava era a pergunta seguinte: de onde exatamente sai esse rendimento, e quem está pagando?
Como a polícia rastreou — e por que congelou mais do que o roubo conhecido
A investigação é o lado mais instrutivo dessa história, e responde a uma pergunta que ficou no ar na cobertura internacional: como os investigadores chegaram a um prejuízo maior do que o comprovado?
A polícia de Seul não começou pelos boletins de ocorrência. Ela começou por uma informação de inteligência: corretoras estrangeiras sinalizaram que reclamações de fraude ligadas a “staking FXRP” estavam se concentrando numa janela curta de tempo. Isso é um padrão, não um caso isolado — e padrão é o que se investiga.
A partir daí, os investigadores analisaram os caminhos de movimentação dos ativos on-chain. Em três dias de investigação, identificaram e congelaram em caráter de urgência cerca de 17,3 bilhões de wons — aproximadamente US$ 12 milhões, ou R$ 61 milhões — espalhados por várias corretoras no exterior.
A conta que não fecha — e é por isso que ela importa
US$ 8,5 mi
Roubo confirmado
(71 vítimas identificadas)
US$ 12 mi
Congelado pela polícia
em 3 dias
US$ 19 mi
Prejuízo total estimado
(investigação em curso)
Leia a tabela acima devagar, porque ela contém a resposta. A polícia congelou mais dinheiro do que as vítimas conhecidas tinham perdido. As 71 pessoas que se identificaram somavam US$ 8,5 milhões. As carteiras rastreadas continham US$ 12 milhões.
Não há mistério nessa diferença: o dinheiro a mais veio de vítimas que ainda não tinham procurado a polícia. Foi o rastreamento on-chain — e não a fila de denúncias — que revelou o tamanho verdadeiro do caso. Daí a estimativa oficial subir para cerca de 27,3 bilhões de wons, algo perto de US$ 19 milhões (R$ 97 milhões), com a investigação ainda aberta.
A lavagem: por que parte sumiu mesmo assim
O grupo não deixou o XRP parado esperando. A cadeia montada por eles seguia este roteiro:
- Vítima envia XRP da corretora nacional para uma corretora estrangeira;
- De lá, para as carteiras controladas pelo grupo;
- O XRP é convertido repetidas vezes — virava Bitcoin, virava Tether (USDT), voltava;
- O resultado era fatiado e distribuído entre dezenas de carteiras diferentes, para quebrar a linha de rastreamento.
Na sequência desse mesmo grupo (mais sobre ela abaixo), os investigadores mapearam uma estrutura de lavagem em quatro estágios envolvendo mais de 61 endereços de carteira. Não é amadorismo: é operação montada por quem já sabia que seria rastreado e tentou comprar tempo.
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Quem foi preso
| Suspeito | Papel | Situação |
|---|---|---|
| A, 29 anos | Operador central | Preso — identificado por registros de compra do domínio, endereços de IP e análise de comunicações |
| B, 29 anos | Comparsa | Preso — fugiu por várias cidades antes de ser capturado |
| C, 34 anos | Ator dublê que se passou por especialista | Preso |
| D, 29 anos | Suspeito no exterior | Foragido — difusão vermelha da Interpol |
O detalhe investigativo que vale guardar: o operador central caiu por registro de compra de domínio. Toda a arquitetura cripto do golpe — as conversões, as dezenas de carteiras, os saltos entre corretoras — foi contornada por um rastro banal da internet tradicional. Golpista precisa acertar em tudo; investigador precisa achar uma ponta.
Eles voltaram sete meses depois
Se você achou que a prisão encerra o assunto, esta é a parte que muda o tom do artigo de “notícia” para “alerta”.
Entre o fim de abril e 11 de maio de 2026, apareceu o wxrpnetwork.com — o “wXRP”. Mesmo desenho, mesmos métodos de divulgação, mesma promessa de 15% a 18% ao ano, com o acréscimo de vídeos com deepfake e alegação de parceria com a Binance. O site sumiu de uma hora para outra, e o conteúdo promocional do YouTube e dos blogs evaporou junto.
Prejuízo dessa segunda rodada: pelo menos 35 vítimas e cerca de 2,2 bilhões de wons (~US$ 1,5 milhão / R$ 7,6 milhões). A imprensa coreana trata o caso como a “terceira fase” da mesma operação — as coincidências de design, de método de divulgação e de fluxo financeiro apontam para continuidade organizacional, e não para um imitador.
Como reconhecer esse golpe antes de depositar
Cinco perguntas. Se qualquer uma delas travar, pare.
1. Essa moeda tem staking de verdade?
XRP não tem. Bitcoin não tem. Dogecoin não tem. Litecoin não tem. Nenhuma moeda que não usa proof-of-stake tem staking nativo — e se alguém oferece “staking” delas, ou é outro produto (com outro risco), ou é mentira. Ethereum, Solana, Cardano e Cosmos têm. Saber essa lista já elimina metade dos golpes.
2. De onde sai esse rendimento?
Rendimento real vem de algum lugar: taxa que alguém paga, empréstimo que alguém toma, risco que alguém assume. Se ninguém consegue explicar quem está do outro lado pagando os seus 1,8% ao mês, o pagador é o próximo investidor — e isso tem nome.
3. Ouviu “principal garantido”?
Pode fechar a página. Não existe rendimento em cripto com principal garantido. Nem na renda fixa brasileira existe garantia sem contraparte e sem limite — o FGC cobre até R$ 250 mil por instituição. Em cripto não há FGC, não há Banco Central por trás, não há ninguém obrigado a devolver nada.
4. Você chegou pelo link ou digitou o endereço?
O golpe inteiro dependia de a vítima chegar por um link plantado. Vá ao site oficial do projeto digitando o endereço, ou pelo perfil verificado dele, e navegue de lá até o produto. Wikipédia, blog e vídeo do YouTube são o que o golpista pode escrever — o domínio oficial, não.
5. Precisa mandar a moeda para uma carteira “deles”?
Esse é o ponto sem volta. Em produto DeFi legítimo você conecta a carteira e assina uma transação, mantendo o controle. Quando pedem para transferir para um endereço que eles indicam, o dinheiro deixou de ser seu no instante da confirmação. Transação em blockchain não tem estorno, não tem chargeback e não tem ouvidoria.
Perguntas Frequentes
XRP tem staking?
Não. O XRP Ledger não usa proof-of-stake e não distribui recompensa por travar moeda — nunca distribuiu. É possível obter rendimento com XRP levando ele para outra rede, como a Flare (onde vira FXRP), mas aí o rendimento vem de uso de capital em DeFi: é variável, tem risco de contrato e de colateral, e pode dar prejuízo. Qualquer oferta de “staking de XRP com taxa fixa” é fraude.
A Flare Network e o FXRP são golpe?
Não. Ambos são reais e legítimos. A Flare é uma blockchain com contratos inteligentes, e o FXRP é o XRP representado nela pelo sistema FAssets, sobrecolateralizado e lastreado 1:1. O golpe clonou a identidade desses projetos num site falso. As vítimas depositaram no Fxrpntwork.com, que não tinha relação nenhuma com a Flare.
Como a polícia descobriu que havia mais vítimas do que as 71?
Pelo rastreamento on-chain. Investigando os caminhos de movimentação dos ativos, os policiais congelaram cerca de US$ 12 milhões em corretoras estrangeiras — mais do que os US$ 8,5 milhões que as 71 vítimas identificadas somavam. A diferença veio de gente lesada que ainda não havia procurado a polícia. Por isso a estimativa oficial subiu para cerca de US$ 19 milhões.
Quem perdeu dinheiro vai receber de volta?
Parcialmente, e não é garantido. Dos valores movimentados, cerca de US$ 12 milhões foram congelados e podem ser objeto de restituição judicial, mas aproximadamente 10 bilhões de wons (~US$ 6,9 milhões) seguem irrecuperáveis. Congelar não é devolver: o dinheiro fica retido enquanto o processo corre, e a devolução depende de decisão judicial e de identificação de cada vítima.
Esse golpe pode acontecer no Brasil?
O modelo é totalmente replicável e não depende de nada específico da Coreia. Trocar o portal Naver por resultados de Google, os blogs coreanos por perfis de Instagram e o ator coreano por um influenciador local custa pouco. O sinal de alerta é sempre o mesmo, independentemente do idioma: taxa fixa alta, principal garantido, e pedido de transferência para uma carteira indicada por terceiros.
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