Tem uma briga acontecendo no Bitcoin que quase não aparece no noticiário de preço, mas que mobiliza desenvolvedores, mineradores e operadores de nó há meses. O nome dela é BIP-110, e ela tem prazo: a janela de sinalização obrigatória começa em agosto de 2026. O detalhe é que, faltando poucas semanas, a proposta tem menos de 1% de apoio dos mineradores.

BIP-110 divide o Bitcoin antes do prazo de sinalizacao de agosto de 2026
Racks de servidores. Crédito: Wikimedia Commons/CC
Resumo rápido: o BIP-110 é um soft fork temporário que quer limitar dados arbitrários na blockchain, revertendo o OP_RETURN para 83 bytes. Precisa de 55% de sinalização dos mineradores e tem cerca de 0,31% do hashrate. A sinalização obrigatória começa no bloco 961.632, entre 7 e 15 de agosto, com ativação projetada para 1º de setembro. Na prática, a ativação é quase impossível — mas o debate expôs uma pergunta muito maior: quem decide o futuro do Bitcoin?

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O que é o BIP-110, em português

O nome formal é Reduced Data Temporary Softfork — soft fork temporário de redução de dados. A proposta foi publicada sob o pseudônimo Dathon Ohm, com o rascunho original creditado ao desenvolvedor veterano Luke Dashjr, uma das figuras mais antigas e mais polarizadoras do ecossistema.

Tecnicamente, o BIP-110 introduz sete novas regras de consenso que valem apenas para outputs criados após a ativação. A mudança mais significativa: limitar as saídas OP_RETURN a 83 bytes, restaurando um teto que o Bitcoin Core v30 havia afrouxado para 100.000 bytes.

Traduzindo o que está em jogo: OP_RETURN é o campo que permite gravar dados arbitrários dentro de uma transação Bitcoin. É por ali que passam inscrições, imagens, tokens e todo tipo de conteúdo não-monetário que vem inflando o tamanho da blockchain nos últimos anos. Quem apoia o BIP-110 quer fechar essa torneira. Quem se opõe diz que a torneira não deveria ser fechada por decreto de consenso.

O argumento de quem é a favor

A tese de Luke Dashjr é de longo prazo e tem lógica própria: o Bitcoin corre “risco grave” com o acúmulo de dados não-monetários na cadeia. Quanto mais a blockchain cresce por conta de conteúdo que não é transação financeira, maior fica o custo de armazenamento para quem roda um nó completo.

E, no modelo de segurança do Bitcoin, rodar um nó é o que dá ao usuário comum a capacidade de verificar as regras por conta própria, sem confiar em ninguém. Se rodar um nó ficar caro, a validação se concentra em poucos operadores — e a rede perde exatamente a propriedade que a torna diferente de um banco de dados corporativo.

“O custo de longo prazo da participação descentralizada na rede vai subir conforme as exigências de armazenamento crescem.”

— Argumento central de Luke Dashjr para o BIP-110

O argumento de quem é contra

Do outro lado, a objeção quase nunca é sobre o mérito de ter menos lixo na blockchain. É sobre método.

Críticos apontam que mudar regras de consenso para censurar um tipo de uso abre um precedente perigoso: se hoje o consenso pode proibir dados arbitrários, amanhã pode proibir outra coisa. E argumentam que o mercado de taxas já resolve o problema — quem quer gravar dados na cadeia paga por isso, e paga caro quando há disputa por espaço no bloco.

Há ainda a acusação técnica mais pesada da discussão: a de ataque Sybil. As duas partes se acusam mutuamente de inflar artificialmente a contagem de nós que apoiam o seu lado. O argumento é válido dos dois lados — subir milhares de nós custa pouco, e endereços Tor são, na prática, gratuitos. Contagem de nós, portanto, não é um bom termômetro de consenso, e é justamente ela que vem sendo citada como prova por ambos os grupos.

Os números que decidem (e por que não fecham)

O BIP-110 usa um deployment BIP9 modificado, com um limite mais baixo que o tradicional: exige 55% de sinalização dos mineradores — 1.109 dos 2.016 blocos de um período de reajuste — em vez dos 95% habituais em soft forks.

Mesmo com a régua mais baixa, os números são desanimadores para os proponentes:

BIP-110 em números

0,31%

Do hashrate sinalizando

55%

Necessário para ativar

2% a 3%

Dos nós da rede

961.632

Bloco da sinalização obrigatória

Desde 1º de maio, apenas 38 blocos de um total de 9.066 sinalizaram apoio — taxa de 0,42%. E praticamente toda essa sinalização vem da Ocean, pool cofundada pelo próprio Luke Dashjr, mais alguns operadores independentes pequenos. Nenhum grande pool aderiu.

Do lado dos nós, o apoio ficou entre 2% e 3% — cerca de 583 de aproximadamente 24.481 nós no começo do ano. E boa parte desse número vem de gente que roda Bitcoin Knots por outros motivos, não de adesão deliberada ao BIP-110. Em fevereiro, o myNode passou a oferecer “Bitcoin Knots + BIP110” como opção de instalação, o que ajuda a inflar a contagem sem representar escolha consciente.

O calendário: o que acontece em agosto e setembro

Etapa Bloco / Data O que significa
Sinalização voluntária Em curso Mineradores podem sinalizar apoio. Está em ~0,31%.
Sinalização obrigatória Bloco 961.632 — entre 7 e 15/08/2026 Fase em que a regra passa a exigir sinalização dos blocos.
Ativação projetada Bloco 965.664 — ~01/09/2026 Data em que as novas regras entrariam em vigor.
Cenário mais provável Não ativa por falta de hashrate.

Tem risco de fork? O que muda para quem só tem BTC

Essa é a pergunta prática, e a resposta honesta é: o risco existe, mas é baixo, e não é isso que deveria te preocupar.

Um soft fork que ativa com apoio esmagador de hashrate é um não-evento para o usuário — as regras apertam, transações antigas continuam válidas, e ninguém precisa fazer nada. O problema seria um soft fork ativando com apoio minoritário e nós divergentes rejeitando blocos válidos para a maioria. Aí sim haveria potencial de cadeia dividida, confirmações inconsistentes e exchanges suspendendo depósitos e saques por precaução.

Com 0,31% de hashrate, esse cenário é remoto. O mais provável é o BIP-110 simplesmente não atingir o gatilho e a data passar sem efeito prático na rede. Ainda assim, exchanges e custodiantes têm agosto marcado no calendário justamente porque o custo de estar despreparado é alto demais.

O que fazer (e o que não fazer)

  • Não precisa vender nada. Ativação de soft fork não desvaloriza nem invalida bitcoin que você já tem.
  • Se você tem BTC em exchange, considere levar para autocustódia antes da janela de agosto. Em qualquer evento de rede, exchanges pausam saques primeiro e explicam depois.
  • Se você roda um nó, saiba qual software está usando. Core e Knots têm políticas diferentes sobre dados arbitrários, e essa escolha é sua sinalização real no debate.
  • Desconfie de contagem de nós usada como argumento por qualquer um dos lados. É a métrica mais fácil de manipular de todo o ecossistema.
  • Ignore quem promete “airdrop do fork”. Golpe clássico em toda discussão de fork no Bitcoin.

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O que essa briga realmente revelou

Independentemente do desfecho em setembro, o BIP-110 já produziu um resultado: ele obrigou o ecossistema a encarar de novo uma pergunta que ficou mal resolvida desde a guerra dos blocos de 2015 a 2017 — quem, afinal, decide o futuro do Bitcoin?

Não são os mineradores sozinhos, que só sinalizam. Não são os desenvolvedores sozinhos, que só propõem. Não são os operadores de nó sozinhos, cuja contagem é trivialmente falsificável. Não são as exchanges, ainda que sejam elas que definam qual cadeia carrega o ticker “BTC” nas telas do mundo.

O Bitcoin funciona porque nenhum desses grupos manda sozinho — e trava exatamente pelo mesmo motivo. O BIP-110 é a demonstração mais recente de que essa lentidão é uma característica, não um defeito. Mudar as regras de um sistema que guarda mais de um trilhão de dólares deveria ser difícil.

Perguntas Frequentes

O que é o BIP-110?

É uma proposta de soft fork temporário, chamada formalmente de Reduced Data Temporary Softfork, que introduz sete novas regras de consenso para limitar dados arbitrários na blockchain do Bitcoin. A principal delas restringe saídas OP_RETURN a 83 bytes, revertendo a flexibilização de até 100.000 bytes adotada no Bitcoin Core v30.

O BIP-110 vai ser ativado?

É muito improvável. A proposta precisa de 55% de sinalização dos mineradores e tem cerca de 0,31% do hashrate. Praticamente todo o apoio vem da pool Ocean, cofundada por Luke Dashjr. Sem adesão de grandes pools até a janela de agosto, a ativação não acontece.

Meu Bitcoin corre risco com o BIP-110?

Não. Soft fork não invalida bitcoin já existente nem cria moeda nova para você reivindicar. O único risco relevante seria de instabilidade temporária na rede caso houvesse ativação com apoio minoritário — cenário remoto no quadro atual. Cuidado com golpes prometendo airdrop de fork.

Qual a diferença entre Bitcoin Core e Bitcoin Knots?

São duas implementações do mesmo protocolo. O Knots, mantido por Luke Dashjr, adota políticas mais restritivas em relação a dados arbitrários e transações consideradas spam. O Core é a implementação de referência, usada pela maioria dos nós. As duas seguem as mesmas regras de consenso — o que muda é a política sobre o que cada nó aceita retransmitir.

Quando é a data limite do BIP-110?

A fase de sinalização obrigatória está projetada para começar no bloco 961.632, entre 7 e 15 de agosto de 2026. A ativação ocorreria no bloco 965.664, com data estimada em torno de 1º de setembro de 2026. Como as datas dependem do tempo de mineração dos blocos, são estimativas e não datas fixas.

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